sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Grandes diretores: Pedro Almodóvar

Pedro Almodóvar é um daqueles poucos casos em se tratando de cinema que pode-se dizer que até quando é ruim, é bom. Não que ele seja ruim com frequência, na verdade. Maior expoente do cinema espanhol moderno, Almodóvar já dirigiu 19 longas-metragens em uma carreira que cobre três décadas. Conhecido por sua estética extremamente peculiar, muitas vezes beirando o surrealismo de seu conterrâneo Buñuel, e personalidade excêntrica, seus filmes comumente tocam em problemas delicados do cotidiano. Particularmente, o diretor já abordou o tema da homossexualidade em vários de seus filmes (Almodóvar é abertamente homossexual) e dirigiu vários longas que têm como teor fundamental a vida e os problemas enfrentados pelas mulheres no mundo moderno.

Almodóvar, nascido em 1949 em Calzada de Calatrava, Espanha, começou sua carreira fazendo filmes experimentais, curtas e flertes com o teatro (que guiariam seus filmes, posteriormente) na década de 1970. Seu primeiro longa, Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão, estreou em 1980 e nos anos seguintes o diretor se manteve bastante ativo, conquistando um público cativo. Embora esta fase inicial da filmografia de Almodóvar seja menos conhecida, se destaca o começo da parceria do diretor com atores como Antonio Banderas, Marisa Paredes e Carmen Maura, que seriam nomes constantes em suas obras. O sucesso, porém, veio realmente com a comédia de humor negro Mulheres a Beira de um Ataque de Nervos, de 1988. O filme, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, apresentou algumas das características que seriam marcantes do cinema de Almodóvar: humor ácido, estética quase escrachada e foco nas personagens femininas.

Com a fama, a década de 1990 se abriu para Almodóvar e se tornou palco de alguns de seus melhores filmes. A sensualidade, outro ponto extremamente notável de suas obras, se apresentou em dois dramas com tons eróticos que passariam a figurar entre seus filmes mais famosos, Ata-me e Carne Trêmula. Voltados para o relacionamento entre casais e triângulos amorosos, algo um tanto incomum para o cineasta, é possível afirmar que ambos possuem o sexo como elemento fundamental ou mesmo como protagonista. Mas foi em 1999 que Almodóvar apresentou ao mundo o filme que muitos (eu, incluso) consideram sua obra-prima, Tudo Sobre Minha Mãe. Apesar de apresentar temas pesados como a morte de um filho, a transexualidade e a AIDS, a obra flui com uma leveza impressionante. As atuações são as melhores entre todos os filmes de Almodóvar, a fotografia tem momentos de pura genialidade e todos os aspectos do filme parecem funcionar perfeitamente em harmonia. O filme ganhou várias premiações de Melhor Filme Estrangeiro, como o Oscar, o Globo de Ouro e o BAFTA.

Na década seguinte, dois filmes se destacam. Fale com Ela viria a se tornar, provavelmente, o filme mais famoso da carreira do diretor. A amizade entre um jornalista e um enfermeiro que se unem por estarem em uma situação parecida - ambos cuidando de uma mulher em coma - é um dos roteiros mais surpreendentes e sagazes dos últimos tempos, e que rendeu a Almodóvar um Oscar. Se Tudo Sobre Minha Mãe é um filme de temas fortes, mas extremamente leve, Fale com Ela é um filme simples, mas extremamente pesado. Já Volver, estrelado por Penélope Cruz, é um drama familiar que também explora, ainda que de maneira inusitada, questões a respeito da espiritualidade. O final surpreendente e o tema "mulherzinha" (sem qualquer desmérito, pelo contrário) voltam a aparecer com força no cinema de Almodóvar.

Depois do basicão, mas interessante, Abraços Partidos, Almodóvar voltou a explorar o surrealismo e a utilizar cores de thriller em seu A Pele Que Habito (cuja resenha você pode conferir aqui no blog). Com uma carreira recheada de filmes polêmicos, aparições amalucadas e um jeito extremamente espontâneo, Almodóvar é uma das caras mais famosas e atuantes do cinema europeu contemporâneo. Ele já flertou com os filmes noir, os dramalhões, o erótico e o surrealismo, entre outras tantas experiências, sempre de maneira original. Seus filmes são uma mostra de como é possível e válido reaproveitar esquemas clássicos, reconstruí-los e obter resultados imprevisíveis e positivos, e como o cinema é extremamente reinventável, em essência.


Um comentário:

  1. Dos filmes que assisti dele até o momento, "Fale com Ela" foi de longe o que mais me impactou. O tema realmente é simples (mais do que de outros filmes dele), mas é tratado de uma forma que torna, na minha opinião, o filme pesadíssimo.

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