terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Análise: Os Descendentes

Alexander Payne é um dos diretores indies queridinhos de Hollywood. Tendo construído uma carreira sólida na década de 1990 com seus filmes pensados para circuitos menores, mas que conseguiram atrair relativa atenção, foi em 2002 com As Confissões de Schmidt que Payne conseguiu abrir de vez as portas do sucesso de público e crítica. Isso, porém, não modificou o estilo do diretor. Assinando com a Fox Searchlight - divisão do famoso estúdio de cinema voltada para os filmes independentes -, Payne lançou Sideways em 2004, filme que conquistou praticamente todos os prêmios da crítica naquele ano. Nada menos que sete anos depois, o diretor lançou seu quinto longa, Os Descendentes. Não demorou muito para o filme começar a chamar atenção, em especial pela atuação de George Clooney no papel principal. O filme ganhou o Globo de Ouro de Melhor Drama e bem recentemente foi indicado para cinco Oscars. Como todos os filmes de Payne, Os Descendentes é uma dramédia, onde questões tipicamente existencialistas são discutidas com toda a leveza que o roteiro puder oferecer. Mas a pergunta que fica é: o longa consegue satisfazer as expectativas e agradar? Para mim, a resposta é direta: Os Descendentes pode não ser melhor do que Sideways, mas sim, Payne mais uma vez entrega um excelente filme.

Clooney é Matt King, um advogado de raízes havaianas que recebeu, junto com seus primos, uma gigantesca herança na forma de terras do arquipélago mais famoso do mundo. Matt é o único na família que realmente cuida dos negócios referentes às propriedades e tem poder soberano para tomar qualquer decisão a respeito delas. Logo fica claro que ele é um workaholic que tem grandes dificuldades para lidar com suas filhas, Alexandra (Shailene Woodley), de 17 anos, e Scottie (Amara Miller), de 10. O filme apresenta desde o começo o drama que mudou o rumo da vida de Matt completamente: sua esposa sofreu um acidente de lancha e está em coma, desenganada pelos médicos. Mais do que lidar com o sofrimento da perda iminente de sua esposa, Matt precisa arranjar um jeito de se conectar com suas filhas: Alexandra alienou-se completamente da família e Scottie está se tornando uma criança cada vez mais problemática. Para piorar, Matt descobre por meio de Alexandra que sua esposa o estava traindo com um corretor (Matthew Lillard) e planejava pedir o divórcio. Ele então toma uma decisão ousada: decide procurar o amante de sua mulher para avisá-lo de que ela está morrendo - e para tentar entender como sua vida desandou tão completamente.

Os Descendentes é mais uma mostra de como Payne é um roteirista de primeira, sabendo equilibrar perfeitamente momentos de calma e humor com passagens intensas e de rasgar o coração. O filme é um drama familiar, antes de tudo, uma dissecação de uma família disfuncional que não deixa de ter laços de afeição entre si - apenas os seus nós que foram se embolando cada vez mais com o passar dos anos. Matt percebe que para entender como poderá ser capaz de seguir em frente após a tragédia, ele precisará primeiro identificar os erros do passado e remendar os pedaços de sua vida. Mas ele logo descobrirá também que muitas vezes não é nada fácil dizer adeus.

É preciso ressaltar, antes de terminar, o grande trabalho do elenco. Já ouvi e li em alguns lugares que talvez a atuação de Clooney não fosse digna de tantos elogios, que ele afinal só estaria interpretando ele mesmo na  grande tela. Não se deixe enganar: Clooney abraça Matt King e dá vida própria a ele. Todos seus maneirismos, sua atenção aos menores detalhes, até mesmo o jeito como ele faz seu personagem correr funcionam para criar um homem abalado e buscando forças em todos os lugares extremamente crível. Clooney está sim na atuação de sua carreira e merece os elogios e premiações que vierem. Quem também faz bonito é Shailene Woodley. A química entre ela e Clooney na tela é notável e Woodley não se intimida diante do veterano. Sua cena na piscina é um dos momentos mais notáveis do filme - com uma grande ajuda da fotografia, também. Pena que a montagem de Kevin Tent, que já teve melhores momentos, deixe um pouco a desejar em várias situações, caindo excessivamente no convencional (só o hype do filme no Oscar justifica sua indicação nessa categoria, mas enfim). Detalhes por detalhes, Payne cumpriu sua missão de entregar um filme que cumpre seus objetivos e entretém. Vale a conferida.

Nota: 4,5 de 5,0.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Top 10: Canções de animações

Depois de 3 tops 10 com temas musicais, chegamos à última lista desse mês temático de janeiro. E depois de analisarmos e listarmos as músicas mais famosas e relevantes do cinema clássico, chegou a hora de listarmos as melhores canções para desenhos animados. A música sempre foi um aspecto de extrema relevância no processo de produção de animações. Essa tradição nasceu sem dúvida dos estúdios Disney, que concebeu seus filmes clássicos como verdadeiros musicais, e ainda que a Pixar, seu desdobramento mais ativo na atualidade, não tenha esse costume tão forte, ela também produziu algumas canções bem famosas para suas animações.

Mas chega de enrolação e vamos começar a lista. E sim, a propósito, para deixar as coisas justas, selecionei apenas uma canção por filme. Regras postas na mesa, aí vai:

10 - Pocahontas
Música: Colors of the Wind (Autores: Alan Menken e Stephen Schwartz)

A balada que embala o encontro entre Pocahontas e John Smith é também uma bela amostra da cultura indígena, suas tradições e sua visão da terra e da natureza.


9 - Mulan
Música: Reflection (Autores: Matthew Wilder e David Zippel)

Mulan pode não ser o desenho mais badalado da Disney, o que é uma pena, já que é excelente. O filme também possuem algumas canções que se destacam, entre elas essa apresentação de Mulan para o público.


8 - Wall-E
Música: Down to Earth (Autores: Peter Gabriel e Thomas Newman)

Para um filme onde o silêncio faz grande parte de sua metade inicial, seu desfecho não poderia ser mais animado do que com essa vibrante canção interpretada por Peter Gabriel.


7 - Pinóquio
Música: When You Wish Upon a Star (Autores: Leigh Harline e Ned Washington)

Uma das canções mais antigas a se destacar em um filme da Disney, esse pode ter sido o primeiro grande sucesso musical do estúdio. Sem dúvida, uma canção lendária.


6 - A Pequena Sereia
Música: Under the Sea (Autores: Alan Menken e Howard Ashman)

Divertida, dançante e original, essa nova aparição de Alan Menken na lista é também uma canção que marcou época quando apareceu nas grandes telas.


5 - Tarzan
Música: You'll Be In My Heart (Autor: Phil Collins)

Depois de tentar emplacar várias vezes uma música no cinema - muita gente conhece Against All Odds, mas pouca gente sabe que ela foi composta para um filme -, Phil Collins enfim acertou no alvo com essa bela e inspiradora balada.


4 - A Bela e a Fera
Música: Beauty and the Beast (Autores: Alan Menken e Howard Ashman)

A mais famosa história de amor da Disney tem uma canção tema memorável que ficou na memória de quem viu o desenho na sua infância.


3 - Aladdin
Música: A Whole New World (Autores: Alan Menken e Tim Rice)

Sim, mais uma - e última - aparição do genial Alan Menken nessa lista. A medalha de bronze do top de hoje fica com um dos temas mais famosos da minha infância, a canção que embala o passeio de tapete Aladdin e Jasmine.



2 - Toy Story
Música: You've Got a Friend in Me (Autor: Randy Newman)

A música de abertura do primeiro filme é também aquela que dá todo o tom da série. Ainda que Toy Story sempre apresente uma canção em cada filme, nenhuma das posteriores superou a original.



1 - O Rei Leão
Música: Circle of Life (Autores: Elton John e Tom Rice)

Serei sincero: não foi fácil escolher uma única canção da minha animação favorita. Hakuna Matata e Can You Feel the Love Tonight chegaram perto, mas no final ficou claro para mim qual música merecia o pódio dessa lista.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Análise: Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras

A adaptação de Guy Ritchie para o cinema do famoso detetive criado por Arthur Conan Doyle é um ponto polêmico entre os fãs do personagem. Inegavelmente, os filmes do diretor de Sherlock Holmes criam um personagem completamente diferente dos livros - em especial, os filmes mostram um Holmes lutador talentoso e de sangue frio, enquanto na obra de Doyle o detetive raramente entra em um confronto físico com os vilões de suas histórias. Apesar das polêmicas, o primeiro filme de Holmes foi um grande sucesso e é um excelente filme de ação, embora para isso tome todas as liberdades imagináveis com o personagem. Vou deixar claro desde já: eu, como fã do personagem e da obra de Doyle, não ligo absolutamente por um segundo para a adaptação do detetive. Trata-se de uma opção de estilo, que deixa o personagem mais acessível, é verdade, mas que teve seus méritos e conseguiu criar, à sua maneira, um resultado interessante. Mas vamos nos ater ao ponto em questão, o segundo filme da nova saga do detetive. O Jogo de Sombras é uma continuação que mantém as características implementadas no primeiro filme, empolgando em muitas sequências, mas contendo claros momentos de irregularidade.

Passado em 1891, o filme mostra a caçada de Holmes (Robert Downey Jr., feito sob medida para o personagem imaginado por Ritchie) ao gênio do crime Prof. Moriarty (Jared Harris). Moriarty é o responsável por uma série de atentados pela Europa, por motivos que vão ficando mais claros ao desenrolar do filme, e Holmes toma para si a missão de tentar impedir os cruéis feitos do vilão. O detetive porém, está sozinho nessa missão - e, por extensão, sentindo-se assim nos outros momentos de sua vida -, já que seu melhor (e único) amigo, o Dr. Watson (Jude Law), está às vésperas de se casar com sua noiva, Mary (Kelly Reilly). Watson, porém, não está tão seguro quanto julgava, já que Moriarty o tem também sob sua mira, devido à sua associação de longa data com Holmes. Enquanto tenta proteger o amigo e desbaratar os esquemas de Moriarty, Holmes acaba cruzando no caminho da cigana Sim (Noomi Rapace, a Lisbeth Salander da versão sueca de Os Homens que Não Amavam as Mulheres), que parece também estar sendo procurada por Moriarty por alguma razão.

Vamos começar pelos pontos positivos: o filme, apesar dos seus desvios e liberdades, é razoavelmente mais fiel à obra de Doyle do que o primeiro. Não só apresenta vários personagens das histórias de Holmes, como o seu arqui-inimigo Moriaty, outro vilão famoso, Sebastian Moran (Paul Anderson), o irmão de Sherlock, Mycroft (Stephen Fry), e uma breve nova aparição de Irene Adler (Rachel McAdams), como seu roteiro é inspirado indiretamente por O Problema Final, um dos contos mais famosos de Holmes. O final do filme, inclusive, sem querer entregar muito, mas talvez já entregando, é todo adaptado do desfecho do conto. Moriarty também funciona muito melhor como antagonista do que o vilão genérico de Mark Strong no primeiro filme, embora haja um certo fator afetivo com relação aos livros que influencie nisso. E muitas técnicas usadas por Ritchie, como o slow motion em sequências de ação extrema, voltam a aparecer bem empregadas aqui.

Mas, infelizmente, nem tudo são flores. O roteiro do filme, como um todo, não tem a mesma empolgação do seu antecessor, talvez por não apresentar um caso específico, como também por conter alguns momentos muito arrastados, em especial no começo. E apesar desse filme apresentar mais efeitos especiais do que o primeiro, fiquei com a sensação de que os do original eram mais bem-acabados e inovadores. Em alguns momentos há uma sensação nítida de que o trabalho de efeitos especiais foi feito às pressas e não dialoga bem com a montagem do filme, em si. Parece que, no geral, Ritchie foi menos cuidadoso nos detalhes e acabamento aqui, o que interfere um pouco no quadro completo. Isso não atrapalha a missão do longa, que é antes de tudo entreter. Algumas sequências são realmente interessantes e em muitas vezes a tensão do filme é transmitida com sucesso ao espectador - a parte final do filme é definitivamente vibrante. Porém, é difícil afastar a sensação de que poderia ter sido melhor, com um roteiro mais afiado e uma decisões de direção mais acertadas. Mas não se engane, se você gostou do primeiro, há grandes chances de se sentir satisfeito com o segundo, também.

Nota: 3,5 de 5,0.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

As indicações do Oscar e suas (nem tão grandes) surpresas

Começa assim: a Academia anunciou, muitas surpresas apareceram, muitas indicações dadas como certas foram ignoradas, outras estavam garantidas mesmo. Pode parecer que na maior premiação do cinema, o roteiro é sempre igual - preencha as lacunas com os nomes dos indicados e ali está. Mas realmente é assim? O fato é que cada ano as lacunas mudam e essa diversidade é que dá todo o tom da festa. Um filme que poderia ser muito bem "a cara do Oscar" dez anos atrás não é exatamente assim hoje. Estruturando-se todo ano como uma corrida pelo ouro em que a única certeza é a de que não há certezas, a imprevisibilidade do Oscar é sua marca registrada. Talvez seja essa a característica em todo esse jogo - porque bem, é um jogo - que mais me atraia. O Oscar é um negócio, sim, para a indústria do cinema. Mas para nós, meros mortais que gostam da sétima arte, o truque é nunca deixar de se lembrar que a premiação é, antes de tudo, uma grande festa, uma diversão, em que muitos de nossos favoritos vão ser lembrados e honrados, o que é ótimo, mas muitos vão ficar pelo caminho.

Sim, eu sei, a maior parte das pessoas está chateada pela ausência de Tintim. Eu também estou. Muita gente está reclamando também da ausência de Ryan Gosling, Tilda Swinton, Michael Fassbender e Albert Brooks, o que é compreensível. Mas vejam bem, nem tudo foi decepção ou falta de coragem. Enfim podemos chamar Gary Oldman de "ator indicado ao Oscar", e acreditem, isso fez meu dia. Swinton pode ter saído infelizmente da disputa, mas temos Rooney Mara em seu lugar, uma atriz extremamente promissora. E a ausência de Os Homens que Não Amavam as Mulheres em várias categorias principais pode ser frustrante, mas quando imaginar que A Árvore da Vida entraria para história como indicado a Melhor Filme? E é nesse balanço de bons e maus momentos, erros e acertos, que o Oscar chega a seu octogésimo-quarto ano. Isso quer dizer alguma coisa.

Mas está na hora de listar e analisar as indicações, enfim:


Melhor filme
"Cavalo de guerra"
"O artista"
"O homem que mudou o jogo"
"Os descendentes"
"A árvore da vida"
"Meia-noite em Paris"
"História cruzadas"
"A invenção de Hugo Cabret"
"Tão forte e tão perto"
Comentários: Choque do dia: a inclusão de Tão Alto e Tão Perto. A campanha do filme estava praticamente morta, mas ele ainda assim mostrou que tem seus fãs na Academia. E como já disse, A Árvore da Vida foi altamente inesperado, também. A omissão de Drive, queridinho dos críticos da temporada, também chama atenção. E Spielberg mostrou sua influência emplacando Cavalo de Guerra (já eu trocaria esse filme dele pelo outro, Tintim, em um piscar de olhos).

Melhor diretor
Michel Hazanavicius - "O artista"
Alexander Payne - "Os descendentes"
Martin Scorsese - "A invenção de Hugo Cabret"
Woody Allen - "Meia-noite em Paris"
Terrence Malick - "A árvore da vida"
Comentários: Hazanavicius, Payne, Scorsese e Allen eram as apostas de quase todos. A surpresa (positiva) foi Malick, sem dúvidas. Ainda acho uma categoria aberta, embora acredite que Hazanavicius leve.

Melhor ator
Demián Bichir - "A better life"
George Clooney - "Os descendentes"
Jean Dujardin - "O artista"
Gary Oldman - "O espião que sabia demais"
Brad Pitt - "O homem que mudou o jogo"
Comentários: Gary Oldman. Melhor surpresa da premiação desse ano. Quanto às omissões, Leonardo DiCaprio e Michael Fassbender foram chocantes para alguns, mas são compreensíveis. A crítica odiou J. Edgar e Shame é um filme extremamente pesado para o gosto da Academia.

Melhor ator coadjuvante
Kenneth Branagh - "Sete dias com Marilyn" (trailer ao lado)
Jonah Hill - "O homem que mudou o jogo"
Nick Nolte - "Warrior"
Max Von Sydow - "Tão forte e tão perto"
Christopher Plummer - "Toda forma de amor"
Comentários: A ausência de Albert Brooks por Drive foi a mais sentida. Já a inclusão de Von Sydow é a grande surpresa. Resta saber se ele pode ser um concorrente para Plummer valendo-se de uma trajetória bastante igual: ambos são veteranos de 82 anos nunca premiados pela Academia. Acho difícil Plummer perder, mas espere o inesperado.

Melhor atriz
Glenn Close - "Albert Nobbs"
Viola Davis - "Histórias cruzadas"
Rooney Mara - "Os homens que não amavam as mulheres"
Meryl Streep - "A dama de ferro"
Michelle Williams -"Sete dias com Marilyn"
Comentários: Única surpresa foi a ausência de Tilda Swinton. De resto, tudo como esperado.

Melhor atriz coadjuvante
Octavia Spencer - "Histórias cruzadas"
Bérénice Bejo - "O artista"
Jessica Chastain - "Histórias cruzadas"
Janet McTeer - "Albert Nobbs"
Melissa McCarthy - "Missão madrinha de casamento"
Comentários: Mais uma categoria sem surpresas. A única atriz que poderia ter entrado aí seria Shailene Woodley, e sua ausência pode ser mau sinal para os que acreditam em Os Descendentes. A nota legal é a inclusão de McCarthy por um papel de comédia - algo raro para o Oscar - e, é claro, Chastain, minha musa da temporada.

Melhor roteiro original
"O artista"
"Missão madrinha de casamento"
"Margin Call"
"Meia-noite em Paris"
"A separação"
Comentários: Única surpresa: Margin Call. E só O Artista derruba Woody Allen.

Melhor roteiro adaptado
"Os descendentes"
"A invenção de Hugo Cabret"
"Tudo pelo poder"
"O homem que mudou o jogo"
"O espião que sabia demais"
Comentários: Nada de surpresas. Indicação de consolação para Tudo pelo poder.

Melhor animação
"A Cat in Paris"
"Chico & Rita"
"Kung Fu Panda 2"
"Gato de Botas"
"Rango"
Comentários: A ausência de Tintim se deve ao preconceito com a captura de movimentos, puro e simples. Rango está com o caminho aberto para o Oscar.

Melhor trilha sonora
"As aventura de Tintim" - John Williams
"O Artista" - Ludovic Bource
"A invenção de Hugo Cabret" - Howard Shore
"O espião que sabia demais" - Alberto Iglesias
"Cavalo de guerra" - John Williams
Comentários: Duas para John Williams, mas o favorito ainda é Bource.

Melhor canção original
"Man or Muppet", de "Os Muppets", música e letra de Bret McKenzie
"Real in Rio", de "Rio", música de Sergio Mendes e Carlinhos Brown, letra de Siedah Garrett
Comentários: Duas indicações? Duas? Num ano com várias músicas interessantes em filmes? A Academia precisa realmente repensar essa categoria como um todo. No mais, aquele momento estranho em que Carlinhos Brown tem 50% de chances de ganhar um Oscar, na indicação surpresa para Rio.

Melhor maquiagem
"Albert Nobbs"
"Harry Potter"
"A dama de ferro"
Comentários: Quem mais vê a série Harry Potter levando uma estatueta de consolação em maquiagem levanta a mão junto comigo.

Melhor direção de arte
"O artista"
"Harry Potter"
"A invenção de Hugo Cabret"
"Meia-noite em Paris
"Cavalo de guerra"
Comentários: Nada mesmo, indicações satisfatórias.

Melhor figurino
"Anonymous"
"O artista"
"A invenção de Hugo Cabret"
"Jane Eyre"
"W.E."
Comentários: Não vou nem fingir que entendo alguma coisa dessa categoria.

Melhor fotografia
"O artista"
"Os homens que não amavam as mulheres"
"A invenção de Hugo Cabret"
"A árvore da vida"
"Cavalo de guerra"
Comentários: Muitos achavam que O espião que sabia demais iria aparecer aqui. No mais, grande escolha em indicar A Árvore da Vida. Pedir uma vitória é muito?

Melhor edição
"O artista"
"Os descendentes"
"Os homens que não amavam as mulheres"
"A invenção de Hugo Cabret"
"O homem que mudou o jogo"
Comentários: Os descendentes conseguiu uma indicação vital para permanecer na disputa. De resto, o esperado.

Melhor mixagem de som
"Os homens que não amavam as mulheres"
"A invenção de Hugo Cabret"
"O homem que mudou o jogo"
"Transformers: o lado oculto da lua"
"Cavalo de guerra"
Comentários: Inserção de Hugo Cabret aqui prova mais do que nunca que eles amaram o filme. Torço para qualquer coisa que não tenha Cavalo de Guerra ou Transformers no título.

Melhor edição de som
"Drive"
"Os homens que não amavam as mulheres"
"A invenção de Hugo Cabret"
"Transformers: o lado oculto da lua"
"Cavalo de guerra"
Comentários: A indicação de consolação para Drive. E continuo torcendo para qualquer coisa que não tenha Cavalo de Guerra ou Transformers no título.

Melhores efeitos visuais
"Harry Potter"
"A invenção de Hugo Cabret"
"Gigantes de aço"
"Planeta do macacos"
"Transformers: o lado oculto da lua"
Comentários: Talvez mais um prêmio para Harry Potter aqui, mas Hugo Cabret e Planeta dos Macacos ameaçam.

Melhor filme em língua estrangeira
"Bullhead" - Bélgica
"Footnote" - Israel
"In Darkness" - Polônia
"Monsieur Lazhar" - Canadá
"A Separação" - Irã
Comentários: Difícil apostar em qualquer coisa que não seja A Separação aqui.

E abaixo, as categorias que pouca gente conhece e eu admito que não estou qualificado para falar nada:

Melhor documentário (longa-metragem)
"Hell and Back Again"
"If a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation Front"
"Paradise Lost 3: Purgatory"
"Pina"
"Undefeated"

Melhor documentário (curta-metragem)
"The Barber of Birmingham: Foot Soldier of the Civil Rights Movement"
"God Is the Bigger Elvis"
"Incident in New Baghdad"
"Saving Face"
"The Tsunami and the Cherry Blossom"

Melhor curta-metragem de animação
"Dimanche"
"The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore"
"La Luna"
"A Morning Stroll"
"Wild Life"

Melhor curta-metragem
"Pentecost"
"Raju"
"The Shore"
"Time Freak"
"Tuba Atlantic"

domingo, 22 de janeiro de 2012

Top 10: Canções de filmes

Música e cinema são artes que funcionam muito bem se complementando. Como já listei nos dois últimos tops 10, trilhas sonoras de qualidade e cheias de sentimento não faltam na sétima arte. Porém, a estratégia de se fazer uma canção para um filme específico nem sempre é a mais valorizada na máquina do cinema. Poucos filmes em um ano que não são animações ou musicais apresentam canções especificamente pensadas e escritas para si. Ainda assim, ao longo do tempo algumas músicas conseguiram ganhar destaque junto ao filme em que surgiram e se tornaram quase icônicas, de forma que ao pensar no filme seu tema seja a primeira coisa que venha à mente. Muitas pessoas odeiam isso, é verdade. Alegam que as canções feitas para um longa normalmente não têm a mesma qualidade que outras produções musicais. Preconceitos e implicâncias a parte, a lista de hoje apresenta 10 canções que merecem destaque por complementar tão bem a obra em que estão inseridas.

É importante ressaltar: a lista contém apenas canções que foram escritas especificamente para o filme que as popularizou. É inegável que I'll Always Love You faz todo mundo pensar rapidamente em O Guarda-Costas, mas a música é muito mais antiga que o filme e foi apenas regravada por Whitney Houston. Para ser justo, tive que fazer uma omissão importante: não esperem encontrar Unchained Melody por Ghost aqui. Sim, a canção foi escrita para um filme, mas um da década de 1950. Ghost popularizou, mas a canção não foi construída para o longa.

Sem mais demora, vamos à lista:

10 - Mentes Perigosas
Música: Gangsta's Paradise (Escrita por Coolio, Douglas Rasheed e Larry Sanders, interpretada por Coolio, com samples de Stevie Wonder)

Enquanto Michelle Pfeiffer faz sua própria caminhada pelo vale das sombras e da morte como uma professora de um colégio público americano, a canção de Coolio ilustra perfeitamente a vida no subúrbio de uma grande cidade dos Estados Unidos. E sua entrada, um sample de Stevie Wonder, é simplesmente clássica.



9 - O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei
Música: Into the West (Escrita por Fran Walsh, Howard Shore e Annie Lennox, interpretada por Annie Lennox)

Impossível encerrar a saga do Anel de maneira mais emocional. Annie Lennox nos transporta para o próprio último capítulo da saga de Tolkien, com suas luzes sobre a água, o chamado das gaivotas e a travessia das almas ao Oeste.



8 - A Dama de Vermelho
Música: I Just Called to Say I Love You (Escrita e interpretada por Stevie Wonder)

Stevie Wonder escreveu para o filme uma das melhores canções de amor já feitas, completa na simplicidade de sua letra e imensidão de sentimento.



7 - 8 Mile: Rua das Ilusões
Música: Lose Yourself (Escrita por Eminem, Luis Resto e Jeff Bass, interpretada por Eminem)

O filme biográfico de Eminem pode até ser um tanto quanto pretensioso, mas vou confessar que gostei. E Lose Yourself fez história como o primeiro hip hop a ganhar o Oscar - com justiça, já que é muito boa.



6 - Butch Cassidy
Música: Raindrops Keep Falling on My Head (Escrita por Burt Bacharach e Hal David, interpretada por B.J. Thomas)

É impressionante como uma canção tão leve como esta conseguiu se encaixar tão bem em um faroeste. Tão bem, aliás, que se tornou uma das mais famosas do cinema.



5 - Top Gun
Música: Take My Breath Away (Escrita por Giorgio Moroder e Tom Whitlock, interpretada por Berlin)

Canção clássica da Sessão da Tarde de um filme clássico da Sessão da Tarde. Mais do que isso, uma das músicas mais famosas dos anos 1980 - e com cara de anos 1980.



4 - Dirty Dancing
Música: (I've Had) The Time of My Life (Escrita por Franke Previte, John DeNicola e Donald Markowitz, interpretada por Bill Medley e Jennifer Warnes)

Mais um clássico da Sessão da Tarde e trilha do que talvez seja a dança mais famosa do cinema e uma das cenas finais mais icônicas de uma geração.



3 - Titanic
Música: My Heart Will Go On (Escrita por James Horner e Will Jennings, interpretada por Celine Dion)

Precisa mesmo de descrição? Alguns amam, outros odeiam, eu acho que a música não é tão ruim quanto alguns pintam nem tão épica quanto outros clamam. Mas um fato é certo: é só entrar o solinho de flauta que já vem alguém abrir os braços e gritar "Eu sou o rei do mundo".



2 - Filadélfia
Música: Streets of Philadelphia (Escrita e interpretada por Bruce Springesteen)

Filadélfia é forte candidato a filme mais triste de todos os tempos. A canção de Springsteen, por sua vez, é candidata a música mais triste de todos os tempos. Junte a atuação monstruosa de Tom Hanks à letra matadora de Springsteen e faça força para não chorar.



1 - O Mágico de Oz
Música: Over the Rainbow (Escrita por Harold Arlen e E.Y. Harburg, interpretada por Judy Garland)

A música mais antiga da lista é também sua número 1. Esse fato já diz tudo sobre a importância cultural da canção para o cinema. O caso mais antigo e mais perfeito de associação de música tema e obra.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Análise: As Aventuras de Tintim

Depois de ver As Aventuras de Tintim, fiquei com a sensação de que havia descoberto porque Cavalo de Guerra foi um filme tão medíocre. Todos os esforços de Steven Spielberg estavam claramente direcionados na animação, a primeira de sua carreira. 2011 foi um ano extremamente fraco para animações, o mais fraco em muito tempo - e não se engane, apesar de Tintim ter chegado às telas no Brasil em 2012, ele é um filme da leva ainda do ano passado. Pois bem, as aventuras cinematográficas do jovem repórter são um verdadeiro alívio para o gênero no ano, além de servir como uma grande renovação para os desenhos de captura de movimentos. A técnica escolhida por Spielberg para levar o personagem dos quadrinhos do belga Hergé ao cinema, aliás, foi alvo de uma polêmica recente, já que muita gente estava levantando a discussão a respeito do filme ser ou não uma animação. Não se deixe enganar: o filme é claramente um desenho animado, como felizmente parece ser o consenso dos críticos e fãs, mas com a maior riqueza de detalhes já vista em uma obra do gênero.

Para ir direto ao ponto do enredo, a história conta como o repórter conheceu seu melhor amigo, o capitão Haddock, que é figura central na trama. Tintim está em uma feira de uma cidade não especificada na Europa quando tem sua atenção despertada para a miniatura de um navio, o Unicorn. Tintim a compra, sendo logo em seguida interpelado insistentemente pois dois homens que gostariam de adquirir a peça. Tintim recusa as propostas, mas logo percebe que a miniatura parece esconder um importante segredo, que se relaciona diretamente com o passado do Unicorn, um grande navio do século XVII comandado pelo lendário Francis Haddock, e que alguém está disposto a fazer de tudo para possuir seu conteúdo misterioso. Ele acaba descobrindo que um dos homens que conhecera, o misterioso Sakharine, sabe mais a respeito do segredo oculto na miniatura do que gostaria de revelar e não medirá esforços para obtê-lo, ainda que para isso precise matar. Em muitas idas e vindas, Tintim eventualmente conhece o capitão Haddock, neto de Francis e último elo com a lenda do Unicorn. Haddock, porém, tem um sério problema com bebidas e está longe de ser a pessoa mais aconselhada a auxiliar Tintim em desvendar o mistério do navio. É o começo de uma longa jornada por terra, mar e ar, onde Tintim, seu inseparável cachorro Milu e Haddock farão de tudo para impedir Sakharine de atingir seus cruéis intentos.

Jamie Bell empresta sua movimentação a Tintim, enquanto Haddock é interpretado pelo rei da captura de movimentos Andy Serkis. Daniel Craig ficou responsável pelo vilão Sakharine, e Nick Frost e Simon Pegg dão vida aos detetives Dupond e Dupont, personagens clássicos dos quadrinhos de Hergé. O roteiro é bastante fiel ao espírito das histórias de Tintim, misturando lendas do passado com aventuras ao redor do mundo e muitos momentos de humor. Existem cenas, porém, que são bem mais fortes do que é padrão em animação familiar, como por exemplo um assassinato, contendo até mesmo um pouco de sangue. Isso, porém, não deixa o filme nem um pouco inadequado para crianças e funciona muito bem como diversão para a família. A mixagem de som está perfeita, um espetáculo a parte, e John Williams faz uma trilha bastante memorável aqui. Mas sem dúvida, é o design do filme que mais chama a atenção. Sendo o meio termo entre a animação clássica e os filmes com atores e cenários reais, o que se vê na tela é simplesmente um filme de beleza raríssima, com cenas com uma riqueza de detalhes de tirar o fôlego. Tintim é uma aventura visual a parte, algo nunca antes visto no cinema de animação.

As Aventuras de Tintim é provavelmente o melhor filme de Spielberg desde AI: Inteligência Artificial - e de lá pra cá ele faz algumas coisas bem estranhas, como diria Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Se animações já costumam ter apelo para públicos de todas as idades, quem cresceu acompanhando as missões do repórter e aventureiro pelo mundo vai ficar bem satisfeito com a transição do personagem para as grandes telas. E até mesmo quem não conhece nada do personagem vai com certeza se divertir com um filme agradável, de espírito leve, história tocante e cenas de ação brilhantemente executadas. O posto de melhor animação de 2011 tem um vencedor indiscutível e de muito mérito.

Nota: 5,0 de 5,0.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Flashback: Chinatown

Meu amor pelo cinema da década de 1970 não é segredo para ninguém que acompanha este blog. Não é para menos: alguns dos melhores roteiros da história foram escritos nessa época. E se é para falar de roteiros geniais, é impossível não mencionar Chinatown, filme de 1974 dirigido por Roman Polanski. O diretor polonês já havia feito um nome no cinema americano na década de 1960 com filmes de terror como A Dança dos Vampiros e O Bebê de Rosemary, mas foi com esse icônico filme de suspense que Polanski passou a ser considerado um dos melhores diretores da atualidade. Chinatown pode ser considerado um neo-noir, uma homenagem ao estilo que fez imenso sucesso nos cinemas na década de 1950. Suas principais características estão todas no roteiro de Robert Towne: o detetive durão, a femme fatale, o assassinato macabro e com vários suspeitos. Porém, as sacadas brilhantes do roteiro, que reserva várias surpresas, e a direção precisa de Polanski fazem o filme fugir dos clichés e, anos depois do auge do noir, praticamente reinventar o gênero.

Estragar as surpresas do final bombástico do filme é um crime, então fique tranquilo caso ainda não tenha visto o filme: essa análise é livre de spoilers. A trama se passa em 1937, em uma Los Angeles menos ensolarada do que o de costume. O detetive Jake Gittes (Jack Nicholson) é contratado pela esposa do engenheiro-chefe do Departamento de Energia da cidade para seguir e investigar seu marido, Hollis Mulwray. Gittes cumpre seu trabalho e fotografa o ricaço com uma mulher mais jovem - apenas para no dia seguinte ser contatado pela verdadeira Evelyn Mulwray (Faye Dunaway, uma das musas da década de 1970). Percebendo ter sido enganado por alguém, Gittes decide investigar quem seria o responsável pela armação, apenas para descobrir que Hollis Mulwray foi encontrado morto por afogamento. Percebendo ter sido jogado em uma rede de intrigas mais complexa do que supunha, Gittes começa a investigar também o assassinato, e a investigação faz com que aos poucos ele conheça mais a respeito do passado de Evelyn. Os dois, como num bom filme noir, começam a se envolver, mas Gittes não demora a suspeitar da própria Evelyn, que parece disposta a esconder muitas coisas do detetive.

Enquanto segue muitos dos elementos do cinema de suspense, o roteiro de Chinatown alcança sua genialidade nas revelações de seu desfecho e sua sequência final memorável e até mesmo angustiante. O filme não está preocupado, realmente, em fazer os espectadores se sentirem confortáveis. O filme fala de traições, assassinatos cruéis e ambição, e leva até o fim seu retrato de algumas das características mais podres dos seres humanos. É na frase de um personagem no fim do filme - Forget it, Jake, it's Chinatown - que parece estar resumida toda a moral do filme. Jake não pode se esquecer de nada do que viu ou passou, assim como quem assiste o filme. Certas coisas não podem ser esquecidas nunca, jamais. Especialmente pelas pessoas que, à sua maneira, ainda acreditam que podem fazer algo para melhorar aquilo que as cerca.

Chinatown é um filme que assombra quem assiste por algum tempo. Mais estranho que isso, e talvez a melhor parte de tudo, é que isso não causa nenhum arrependimento no espectador. Acreditem, é um dos melhores thrillers de mistério, se não o melhor, já transposto para as telas do cinema. Seu roteiro ganhou o Oscar de melhor roteiro original e o filme ganhou 4 Globos de Ouro, incluindo melhor drama. Mais do que isso, o longa deixou marcas indeléveis no gênero, fez uma porção ainda maior do público de cinema conhecer Polanski e deixou de herança um dos filmes mais sombrios e bem-feitos de um estilo de filme que já é sombrio até em seu nome.

Nota: 5,0 de 5,0.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O que o Globo de Ouro nos revelou

"Termômetro para o Oscar". Esse slogan informal é atribuído há muito tempo ao Globo de Ouro e é bem provável que muita gente tenha assistido à cerimônia da premiação ontem tentando traçar paralelos com o que provavelmente acontecerá dia 26 de fevereiro, data da entrega do Oscar. Quem teve essa intenção, com certeza terminou a noite com mais perguntas do que respostas. Também pudera: se olharmos as principais categorias - filme de drama, filme de comédia, diretor e roteiro -, veremos que cada prêmio foi para um filme diferente. Claro, uma premiação de cinema não precisa se ater a um único filme e a diversidade é sempre bem-vinda, mas alguma coesão é fundamental para mostrar que realmente foi possível identificar um certo número de "melhores do ano". E a sensação que ficou foi a de que quem votou no prêmio ontem não sabia muito bem o que estava fazendo. Não que os vencedores tenham sido injustos, mas parece que estamos diante de um ano particularmente estranho e desconexo quando o assunto é temporada de premiações.

Antes de fazermos uma análise dos vencedores em si, vamos começar desmentindo a frase que abre essa postagem. O Globo de Ouro NÃO é termômetro para o Oscar. É só olhar os últimos dez anos da premiação: dos dez vencedores de melhor drama e dos dez de melhor comédia, apenas três acabaram levando o Oscar de melhor filme: Chicago, O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei e Quem Quer Ser Um Milionário. E os dois últimos foram casos de vencedores "inquestionáveis", aqueles filmes que venceram absolutamente todas as premiações do ano, o que quer dizer que o Globo de Ouro foi só mais um na onda e não um prognóstico. E, no geral, o Oscar tende a dar mais bolas dentro do que o Globo de Ouro. É só olhar: Bugsy vencendo O Silêncio dos Inocentes? Perfume de Mulher ganhando de Os Imperdoáveis? A Garota do Adeus derrotando Noivo Neurótico, Noiva Nervosa? É claro que nem tudo é demérito para o Globo de Ouro: eles também acertam bonito às vezes. E tendem a ter uma boa taxa de correspondência com o Oscar nas categorias de atuação. O truque é encarar o Globo de Ouro como algo a parte, uma premiação que não deve ser considerada muito seriamente, mas ainda garante alguma diversão.

Tendo dito isto, vamos aos vencedores e comentários:

 - Melhor filme de drama
Vencedor: Os Descendentes
O que isso nos diz: Basicamente, nos prova finalmente que Os Descendentes tem uma base de fãs por aí e que é talvez o único real concorrente a O Artista no Oscar. Ainda assim, não consigo ver o filme ganhando a estatueta. O filme tem cara de anos 80: tivesse sido lançado na mesma época que Kramer vs. Kramer, Gente como a Gente ou Laços da Ternura, seria o favorito disparado. Mas os Oscars mudaram e muito de lá pra cá. Pode chegar lá, mas me surpreenderia.

- Melhor filme de comédia/musical
Vencedor: O Artista
O que isso nos diz: Apenas nos prova que O Artista é um dos grandes favoritos. Ganhar nessa categoria não foi difícil - ele era o vencedor óbvio. Mas ainda não consigo ver qualquer filme ganhando o Oscar que não seja ele.

- Melhor diretor
Vencedor: Martin Scorsese, A Invenção de Hugo Cabret
O que isso nos diz: É aí que a coisa se complica. A vitória de Scorsese nos mostra que A Invenção de Hugo Cabret tem mais apoio do que muita gente pensava. Isso parece apontar para uma divisão na premiação do Oscar: enquanto Scorsese tem chances de ganhar, seu filme nem tanto, o que é bastante estranho, pensando-se logicamente. Ainda aposto em Hazanavicius para o Oscar, mas parece que estou começando a nadar contra a corrente.

- Melhor roteiro
Vencedor: Woody Allen, Meia-Noite em Paris
O que isso nos diz: Já não estava bastante complicado? O roteiro de Allen, como todos da carreira do diretor, é original (em todos os sentidos), na terminologia do Oscar. Supondo-se que ele vá tirar o prêmio nessa categoria de O Artista, e realmente tudo está indicando para isso, sobra Roteiro Adaptado, que até agora aponta para Os Descendentes. E me parece estranho que O Artista possa ganhar Melhor Filme sem prêmios para seu diretor ou seu roteiro. Logo, chegamos aqui a dois desdobramentos: ou O Artista não leva o Oscar, ou o cenário do Globo de Ouro não vai se repetir no seu primo mais famoso, o que eu particularmente acredito ser o caso.

- Melhor ator de drama
Vencedor: George Clooney, Os Descendentes
O que isso nos diz: Que Clooney vai ganhar o Oscar. Alguns ainda acreditam em Brad Pitt, mas acho que cada vez mais as chances dele perdem força. Ele precisa do SAG dia 29 e ainda assim seria uma competição apertada.

- Melhor atriz de drama
Vencedora: Meryl Streep, A Dama de Ferro
O que isso nos diz: Que Streep de fato é a favorita e deve ganhar seu terceiro Oscar. As chances de Viola Davis não acabaram - um SAG dia 29 empata a disputa - mas está tudo apontando para Streep. Talvez sua grande competidora nem seja Davis, mas sim Michelle Williams.

- Melhor ator de comédia/musical
Vencedor: Jean Dujardin, O Artista
O que isso nos diz: Honestamente, nada. A vitória dele era óbvia pelo favoritismo do filme. Ele pode ganhar o Oscar numa total surpresa, mas não se iludam com o fato de que, se isso acontecer, a vitória dele aqui foi o primeiro sinal.

- Melhor atriz de comédia/musical
Vencedora: Michelle Williams, Sete Dias com Marilyn
O que isso nos diz: A vitória de Williams aqui também não foi surpresa. Ela muito provavelmente vai ser indicada ao Oscar e talvez seja a mais bem posicionada para competir com Streep pelo Oscar pela força de sua personagem.

- Melhor ator coadjuvante
Vencedor: Christopher Plummer, Toda Forma de Amor
O que isso nos diz: Que Plummer já pode abrir um espaço na estante para o Oscar.

- Melhor atriz coadjuvante
Vencedora: Octava Spencer, Histórias Cruzadas
O que isso nos diz: Bem, Spencer se tornou oficialmente a favorita da categoria. Porém, eu ainda tenho uma sensação que ela não vai ganhar o Oscar. Não tenho qualquer coisa para basear isso, é puro achômetro. Não acho que seja preconceito racial - mulheres negras ganham essa categoria com alguma frequência, até. Mas ainda me parece que falta "algo". Se ela ganhar o SAG, mudo oficialmente de opinião.

Ah sim, O Artista ganhou trilha sonora, algo que deve se repetir no Oscar. E não vamos comentar a respeito de Madonna ter ganhado Melhor canção, prefiro fingir que isso não aconteceu. Vamos apenas nos ater o fato de que a canção está inelegível para o Oscar e agradecer por isso. Já o iraniano A Separação ganhou filme estrangeiro, como tem ganhado em todas as premiações. A vitória de As Aventuras de Tintim como Melhor animação surpreendeu a alguns, mas apenas prova que o filme superou a discussão quanto a ser ou não um desenho animado e ultrapassou Rango como o favorito ao Oscar. Quanto à cerimônia em si... bem, ela começou até que bastante bem, mas terminou bastante corrida, com a impressão de que eles não poderiam ultrapassar o horário estipulado de jeito nenhum. No mais, bastante burocrática e com pouca emoção, com exceção talvez, da homenagem a Morgan Freeman. Ah, e Gervais estava bem mais controlado dessa vez também, e foi só chato. Mas tradições são tradições, afinal.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Análise: O Espião que Sabia Demais

O Espião que Sabia Demais é um projeto com vários nomes envolvidos que me empolgaram logo de cara: Gary Oldman, Colin Firth, Tomas Alfredson e John le Carré. Apesar da distribuição limitada nos cinemas do Rio de Janeiro, pude conferir hoje o filme e formar minhas próprias opiniões. Tomas Alfredson dirigiu Deixa Ela Entrar, provavelmente o melhor filme de terror dos últimos anos e responsável por jogar ar fresco em um tema abordado exaustivamente recentemente, os vampiros. Sendo assim, minhas expectativas para seu novo filme estavam altíssimas e, de fato, não me decepcionei. Há algumas falhas óbvias em O Espião que Sabia Demais, é verdade, mas elas não impedem Alfredson de entregar um thriller com um roteiro intrigante e bem executado.

Ouvi muitas vezes, nos últimos tempos, que a atuação de Gary Oldman nesse filme era a melhor de toda a sua carreira. Agora, posso dizer com verdade: eu assino embaixo. Não espere, com isso, uma atuação vibrante, passional. Oldman conduz seu George Smiley de maneira quase introspectiva, com a frieza de um espião a serviço por décadas e que teve que aprender a enjaular seus sentimentos dentro de si. Smiley é um homem discreto e controlado, e justamente a dificuldade de fazer o público sentir empatia e entender as motivações do personagem é que torna o trabalho de Oldman, que cumpre essas missões com louvor, tão completo. É uma pena que Oldman esteja sendo quase que completamente ignorado ao longo da temporada de premiações.

A história do filme, baseada no best-seller de John le Carré, se passa em 1973, em um dos períodos mais tensos da Guerra Fria. Smiley, um espião veterano da agência de serviço secreto britânica Circus, é forçado a se aposentar após uma missão comandada por seu chefe, Control (John Hurt), dar muito errado, fazendo os dois caírem juntos. A aposentadoria de Smiley não dura muito, já que ele é chamado para voltar a ativa após a morte de Control, com o objetivo de entrar em contato com o agente Ricki Tarr (Tom Hardy), um espião infiltrado na União Soviética e que teria descoberto a existência de um agente duplo no alto escalão do Circus, suspeita que Control compartilhava. Seguindo as pistas deixadas por seu ex-chefe, as suspeitas de Smiley caem sobre quatro figurões do Circus: Percy Alleline (Toby Jones), o "Funileiro", Bill Haydon (Colin Firth), o "Alfaiate", Roy Bland (Ciáran Hinds), o "Soldado", e Toby Esterhase (David Dencik), o "Pobre" (os apelidos são baseados numa canção tradicional americana). Smiley precisa adotar à risca o lema "não confie em ninguém" e descobrir o mais rápido possível a identidade do traidor.

Por Deixa Ela Entrar já é possível perceber que Alfredson não é um fã de montagens alucinadas, no melhor estilo Danny Boyle ou Quentin Tarantino. Seus filmes seguem um ritmo quase leve, não importa o quão pesado seja o tema, e O Espião que Sabia Demais não foge à regra. Isso faz com que o filme demore um pouco a pegar no tranco, mas uma vez iniciado ele se torna realmente interessante. A fotografia de Hoyte van Hoytema, antigo colaborador de Alfredson, é extremamente "Guerra Fria", com predominância do azul e do preto, o que ajuda e muito a compor o clima do longa. Porém, existem dois problemas no roteiro que chamam a atenção. O próprio le Carré manifestou preocupação com a dificuldade em resumir um livro tão complexo e cheio de personagens em um filme de duas horas. Os roteiristas conseguem fazer um bom trabalho, mas ainda assim no fim do filme ouvi comentários no cinema como "Achei muito confuso" ou "Preciso ver de novo para entender". De todas as formas, isso não chega a ser uma falha do roteiro, mas sim ajuda na hora de ressaltar que o filme é mais recomendado para quem já tem uma intimidade ou com o assunto espionagem, ou com a obra de John le Carré. Outro ponto digno de observação, esse sim um problema estrutural, é que o final do filme chega ser praticamente anticlimático de tão simples e abrupto. Contudo, O Espião que Sabia Demais consegue ser maior que esses pequenos problemas, e é daqueles filmes obrigatórios para os fãs do gênero.

Nota: 4,0 de 5,0.

Top 10: Trilhas sonoras de animações

Depois de uma pausa por razões técnicas, o Top 10 temático de janeiro está de volta. E conforme prometido, o tema de hoje é trilhas sonoras de animações. Desenhos animados no cinema são famosos por suas trilhas sonoras quase sempre espetaculares e grandes compositores ficaram conhecidos por seus trabalhos no gênero (em especial dentro da Disney/Pixar, as maiores referências em animação). Considerando tanta riqueza musical, espero que essa lista consiga honrar toda a tradição das animações.

Ah, e pra domingo que vem, o tema também já é certo: canções feitas para filmes que marcaram época. Façam suas apostas.

A lista você pode conferir aqui embaixo:

10 - A Viagem de Chihiro (Joe Hisaishi)

A Viagem de Chihiro foi responsável por introduzir as animações japonesas para muita gente no Ocidente. Sua trilha consegue fazer jus a grandeza do filme e mostra como os japoneses são também grandes compositores.



9 - Procurando Nemo (Thomas Newman)

Thomas Newman é um dos maiores compositores contemporâneos. Em Procurando Nemo, ele consegue criar um balanço perfeito para um filme cujo pano de fundo é o mar.



8 - Pocahontas (Alan Menken)

A lenda americana a respeito da bela índia recebe a trilha sonora de Alan Menken, o compositor clássico da Disney na década de 1990.



7 - Como Treinar Seu Dragão (John Powell)

O melhor filme da Dreamworks é também o com a trilha sonora mais bonita do estúdio. John Powell ganhou fama em 2010 ao compor alguns dos temas mais maravilhosos do ano.



6 - Fantasia (Vários compositores, orquestra conduzida por Leopold Stokowski)

Um dos filmes mais "excêntricos" da Disney (para não dizer bizarro), Fantasia entra nessa lista mais por sua importância histórica, já que a trilha sonora do filme é basicamente uma adaptação de vários compositores clássicos.



5 - O Castelo Animado (Joe Hisaishi)

O Japão e Hisaishi voltam a aparecer nesta adaptação do romance da saudosa Diana Wynne Jones para as telas do cinema.



4 - A Bela e a Fera (Alan Menken)

A Bela e a Fera pode ser a animação que define o que são os desenhos animados tradicionais da Disney. Sua trilha, também, é uma das mais clássicas e essenciais do gênero.



3 - O Rei Leão (Hans Zimmer)

Porém, não posso negar que minha animação clássica da Disney favorita é O Rei Leão. Sua trilha sonora é de ninguém menos do que Hans Zimmer, e merece estar no pódio dessa lista.



2 - WALL-E (Thomas Newman)

O trabalho que Thomas Newman faz em WALL-E é algo inexplicável. Uma trilha que, de todas as formas, vale mais do que mil palavras.



1 - Up - Altas Aventuras (Michael Giacchino)

Somente uma palavra define Giacchino e seu trabalho em Up: genialidade. O topo desse lista é de Up, sem questionamentos. Aproveitem.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Análise: Cavalo de Guerra

Acho que já mencionei aqui como a maior parte da carreira de Steven Spielberg pode ser dividida em duas categorias diametralmente opostas. O primeiro Spielberg, que predominou durante quase todo o começo de sua carreira foi o família, a diversão leve, agradável e primorosamente executada. É o Spielberg de ET, de Indiana Jones, de Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Há também um Spielberg que surgiu mais tarde. Sua base estava ali em Tubarão, mas só se desenvolveu de fato alguns anos depois. Esse Spielberg é o adulto de A Cor Púrpura, de A Lista de Schindler, de Munique. Durante toda sua filmografia, por quase quarenta anos, Spielberg foi e voltou com sucesso nessas categorias. Então temos Cavalo de Guerra, um texto que apareceu primeiramente em um livro da década de 1980, foi transformado em peça e por fim em longa metragem. Cavalo de Guerra parece ser um argumento ideal para construir um filme que visite os dois opostos da carreira de seu diretor. Mas existe um grande problema nisso tudo: a intenção é boa, mas a execução, nem tanto.

Sim, o filme tem pontos positivos. Duas coisas que Spielberg nunca teve dificuldade em fazer foram reconstituições históricas e cenas de guerra, e elas aparecem de maneira impecável aqui. A velha turma do diretor também aparece com competência: Michael Khan edita dando o tom e o clima das partes do filme, John Williams faz uma trilha que se encaixa como uma luva e Janusz Kaminsk conduz, na maior parte do filme, a fotografia com momentos de grandiosidade. (Digo na maior parte porque, em determinados momentos, o abuso de efeitos digitais estraga completamente a composição. Fica parecendo que a fotografia quis homenagear os tempos de Technicolor e eu me peguei lembrando várias vezes no cinema de E o Vento Levou. O problema é que nesse filme a estética da fotografia era uma necessidade, não uma opção, e funcionava muito bem, enquanto no filme de 2011 tudo parece muito forçado e exagerado.)

Mas vamos direto ao ponto: o que realmente me incomodou, o ponto central de todos os problemas do filme, foi o roteiro. Em linhas gerais, para evitar qualquer revelação, Cavalo de Guerra acompanha a amizade de um rapaz do interior, Albert (Jeremy Irvine), e seu cavalo, Joey, de quem ele criou e o cuidou desde quando ainda era um potro. Por uma série de razões, homem e animal são separados quando Joey é vendido para um soldado embarcando para a Primeira Guerra Mundial (Tom Hiddleston). O cavalo passará por vários donos e será pano de fundo para várias histórias, enquanto Albert decide ele próprio ir atrás de seu animal assim que atinge a idade para se alistar no exército. É aí que o grande problema acontece. O que era um filme de fantasia rapidamente se torna um apanhado brutal da guerra. Spielberg não chega a repetir um Resgate do Soldado Ryan, mas o filme se torna inegavelmente mais pesado do que sua primeira meia-hora parecia indicar. Ao longo da trama, os dois universos voltam a se fundir, e o filme cada hora pisa em um campo diferente, já tendo desandado completamente na sua hora final. Cavalo de Guerra acaba se tornando forte demais para um filme família, mas fantasioso demais para um filme de guerra. Na intenção de fundir os elementos de maior sucesso de Spielberg, o filme acaba não cumprindo bem nem uma coisa, nem outra.

Sendo assim, é um filme muito ruim? Não. Spielberg não deixa de ser Spielberg e em vários momentos a presença de sua mão na direção trazem momentos interessantes ao filme. Mas isso não impede o filme de perder seu rumo, eventualmente. Se a ideia é misturar os lados mais leves e sombrios que marcam o diretor, o conselho é assistir dois filmes seus, hoje clássicos: Império do Sol e AI: Inteligência Artificial. O diferencial é que esses filmes nunca foram planejados para serem interpretados como leves, embora tenham sido entendidos erroneamente como tal muitas vezes. Já Cavalo de Guerra se vende assim, embora não tenha certeza de que é isso que realmente quer ser.

Nota: 2,5 de 5,0.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Flashback: Crepúsculo dos Deuses

Uma das coisas que mais se diz a respeito dos filmes de 2011 é como o cinema no ano que acabou de terminar pareceu dedicado a fazer uma homenagem a si próprio. Um dos blockbusters de maior sucesso do ano, Super 8, foi acima de tudo uma homenagem aos filmes de ficção científica das décadas de 1970 e 1980. Dois favoritos ao Oscar, O Artista e A Invenção de Hugo Cabret, têm como tema principal uma homenagem à sétima arte. O fato é que, de tempos em tempos, Hollywood sente a necessidade de manifestar publicamente um pouco de amor próprio, usar a carta da metalinguagem e levar a si própria para as grandes telas. Enquanto o tema é quase sempre uma homenagem, em alguns momentos diretores e roteiristas perceberam que o assunto poderia servir perfeitamente como roupagem para uma análise de alguns aspectos mais obscuros do ser humano. E se formos de volta para exatamente a metade do século XX, em 1950, poderemos encontrar o exemplo mais clássico disso. Billy Wilder, um dos maiores diretores da época, fez um dos filmes noirs mais inusitados da história com Crepúsculo dos Deuses.

O começo do filme é daqueles icônicos, o tipo de cena que fica gravada na história do cinema, não importa quantos anos se passem. O corpo do roteirista Joe Gillis (William Holden) aparece boiando numa piscina, observado pela polícia. A narração do próprio Gillis entra em off imediatamente, e o protagonista começa a explicar os eventos que conduziram à sua morte em uma mansão na famosa Sunset Boulevard (que, aliás, é o título original do filme). Gillis nos conta como sua carreira em Hollywood não estava indo exatamente de vento em popa. Tendo seus scripts constantemente recusados pelas produtoras e afundado em dívidas, Gillis se vê obrigado a fugir certo dia de seus cobradores e acaba buscando refúgio na casa de Norma Desmond (Gloria Swanson, mostrando que "aula de atuação" é mais que um clichê), uma mulher de meia idade de hábitos estranhos e temperamento explosivo. Norma vive sozinha a não ser pela companhia de seu reservado mordomo, Max (Erich von Stroheim). Apesar da estranheza do encontro inicial, Gillis logo descobre que Norma foi uma das atrizes mais famosas do cinema mudo. Logo, os dois selam um acordo: Gillis escreverá um roteiro para reviver a carreira de Norma e ela o abrigará em sua casa e pagará suas dívidas. Receoso a princípio, Gillis se vê forçado a aceitar os termos e rapidamente se acostuma à sua nova vida.

Não demora, porém, para o roteirista perceber que sua contratante tem interesses além dos profissionais nele. Gillis decide não corresponder aos sentimentos da temperamental artista a princípio, mas quando Norma tenta se suicidar ao ser rejeitada, ele se torna mais receptivo às suas investidas. A situação se complica ainda mais quando Gillis começa a trabalhar em segredo em um roteiro com uma funcionária da Paramount, Betty (Nancy Olson), e o relacionamento entre eles começa a evoluir para algo mais sério. Gillis se vê no centro de um quadrilátero amoroso entre ele, Betty, a obsessiva Norma e o ciumento Max, que rapidamente atinge um nível insustentável com as atitudes inesperadas de Norma. Conforme o filme caminha para seu desfecho anunciado e drástico, a derrocada mental da atriz vai ficando cada vez mais evidente. É impossível deixar de ressaltar a cena final do filme, quando Norma, já completamente enlouquecida, desce de forma teatral as escadas de sua casa tomada pela polícia, encarando a câmera e dizendo a frase mais famosa do filme: "All right, Mr. De Mille, I'm ready for my close-up".

Crepúsculo dos Deuses foi um dos filmes mais revolucionários de sua época. O longa possuía toda a estética do noir, que estava na moda naquela época, mas seu tema é bastante incomum para um filme do gênero, usualmente focado em detetives, femmes fatales e gângsters. O filme foi um dos primeiros a abordar as dificuldades enfrentadas por alguns atores clássicos do cinema mudo em fazer a transição, às vezes sem sucesso, para os filmes falados - aqui, conduzindo a um desfecho trágico. O roteiro também foi bastante incomum e inovador para a época: o narrador morto contando sua história, no melhor estilo Brás Cubas, fazendo com que todo o filme fosse, de fato, um grande flashback. Crepúsculo dos Deuses foi um marco de sua época, acabou indicado a 11 Oscars, vencendo 3 (inclusive um por seu roteiro), e é presença indispensável em qualquer lista de melhores do cinema. Pode parecer exagerada para alguém de hoje em dia a afirmação de que o filme foi determinante para mudar várias concepções do cinema de suspense, mas ele sem dúvidas revitalizou o gênero e foi um divisor de águas hollywoodiano. Afinal, se uma hora ou outra inevitavelmente um filme acaba se tornando responsável por estabelecer novos parâmetros para o cinema, isso não diminui o mérito daqueles que efetivamente chegaram lá e fizeram as coisas acontecerem.

Nota: 5,0 de 5,0.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O aquecimento para o Oscar

Em primeiro lugar, mea culpa: de fato, o Top 10 de ontem não rolou. Estou completamente enrolado e não consegui encontrar o tempo necessário ontem para fazê-lo com a atenção que merece. Mas como mês tem 5 domingos e eu planejei 4 Top 10 com temas musicais, ainda estamos dentro do esquematizado.

Para hoje, preparei um assunto que também estava precisando atualizar aqui no blog. Janeiro já chegou e, com ele, quase todas as premiações de críticos já foram feitas e as guildas dos produtores, roteiristas, diretores e atores de Hollywood, além do Globo de Ouro, já fizeram suas indicações. Em suma, estamos no auge da temporada de premiações, que é um grande prelúdio ao maior prêmio da indústria, o Oscar. E com a proximidade do dia 24, quando a Academia anunciará seus indicados, já podemos apontar os favoritos nas principais categorias. Minha visão inicial da corrida pelo ouro nas principais categorias vocês podem acompanhar a seguir:

- Melhor filme


Onze filmes despontam como favoritos aqui:

Os Descendentes
O Artista
O Homem Que Mudou o Jogo
A Invenção de Hugo Cabret
A Árvore da Vida
Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Meia-Noite em Paris
Histórias Cruzadas
Cavalo de Guerra
Tudo Pelo Poder
Drive

Se a Academia ainda estivesse seguindo as regras dos dois anos anteriores, teríamos dez indicados aqui. Porém, este ano as regras foram alteradas e determinam que cada indicado deve atingir um coeficiente mínimo de votos para figurar aqui, fazendo com que possamos ter um número flutuante de indicados, entre 5 e 10 (o que é um meio de dizer: ok, erramos, mas não temos coragem de admitir que 10 indicados era má ideia então vamos usar essa solução meia boca por enquanto).
A pergunta que realmente importa é: se não sabemos quantos serão os indicados no final, quem realmente está praticamente garantido? Bem, eu diria que cinco filmes são indicação certa dia 24: Os Descendentes, O Artista, A Invenção de Hugo Cabret, Histórias Cruzadas e Cavalo de Guerra. Os cinco filmes tem feito bonito na temporada de premiações e são, além de tudo, filmes com temáticas que a Academia simplesmente adora. Quanto aos outros, está dando pinta de que esse ano Woody Allen voltará a ter um filme indicado à categoria máxima com Meia-Noite em Paris, e o filme tem ganhado muito gás com as premiações das guildas. O Homem que Mudou o Jogo também tem grandes chances por seu tema: um filme de esportes motivador e que conquista até quem não gosta de esportes. Eu diria que esses são os sete mais prováveis, mas também acho que uma oitava vaga está em aberto. Risco Tudo Pelo Poder, recebido muito friamente pela crítica, e A Árvore da Vida, muito "Festival de Cannes". Quem sobra? Dois filmes parecidos: temas pesados, sexo e violência. Drive e Os Homens que Não Amavam as Mulheres, na minha opinião, estão competindo entre si. Mas também acho que o fator David Fincher deve pesar a favor do último.

- Melhor diretor

Os mais bem cotados são... bem, os diretores dos filmes favoritos:

Alexander Payne (Os Descendentes)
Michel Hazanavicius (O Artista)
Bennett Miller (O Homem que Mudou o Jogo)
Martin Scorsese (A Invenção de Hugo Cabret)
Terrence Malick (A Árvore da Vida)
David Fincher (Os Homens que Não Amavam as Mulheres)
Woody Allen (Meia-Noite em Paris)
Tate Taylor (Histórias Cruzadas)
Steven Spielberg (Cavalo de Guerra)
George Clooney (Tudo Pelo Poder)
Nicolas Winding Refn (Drive)

Com mais de cinco filmes podendo ser indicados a melhor filme, parece estranho pensar que agora um diretor poderia ser indicado, mas seu filme não, algo que acontecia MUITO até 2009. E quem está melhor posicionado na corrida? Bem, para começar, Refn e Taylor são muito desconhecidos e seus filmes não têm força suficiente para alavancá-los. Podemos cortá-los. Malick e Clooney precisam que seus filmes sejam indicados, o que não vejo acontecendo. Alexander Payne, Michael Hazanavicius e Martin Scorsese parecem certos. Quem sobra? Spielberg, Fincher, Allen e Miller. Nada tem apontado realmente para Miller ao longo da temporada, então, se riscamos ele, ficamos com três monstros da direção contemporânea para disputar uma vaga. E a briga promete.

- Melhor ator


Nove atores (por dez filmes) aparecem na ponta:


Brad Pitt (O Homem que Mudou o Jogo)
George Clooney (Os Descendentes)
Leonardo DiCaprio (J. Edgar)
Jean Dujardin (O Artista)
Michael Fassbender (Shame)
Ryan Gosling (Tudo Pelo Poder e Drive)
Gary Oldman (O Espião que Sabia Demais)
Michael Shannon (O Abrigo)
Demian Bichir (A Better Life)

Categoria molezinha do ano, a menos que algo gigantesco aconteça. Arrisco dizer que temos quatro garantidos e cinco atores disputando a última vaga aqui. Só um milagre derruba Pitt, Clooney, DiCaprio e Dujardin (e talvez só um milagre tire o Oscar de Clooney). Oldman e Shannon vem perdendo força e Bichir é o maior azarão da temporada. Restam Gosling e Fassbender, dois astros do momento em Hollywood. Contra Gosling, a competição interna entre seus dois papéis. Contra Fassbender, o fato de estrelar no filme mais polêmico dos últimos tempos.

- Melhor atriz

Poderia colocar seis aqui só, mas vão nove:

Meryl Streep (A Dama de Ferro)
Glenn Close (Albert Nobbs)
Viola Davis (Histórias Cruzadas)
Michelle Williams (Minha Semana com Marilyn)
Rooney Mara (Os Homens que Não Amavam as Mulheres)
Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre Kevin)
Charlize Theron (Jovens Adultos)
Elizabeth Olsen (Martha Marcy May Marlene)
Kirsten Dunst (Melancolia)

Pensando bem, essa categoria deve ser a molezinha da temporada. Streep, Close, Davis, Williams e Swinton são as cinco favoritas, aparecendo em quase todas as premiações. A única que pode realmente estragar a festa de uma delas é Rooney Mara.  Theron, Olsen e Dunst estão aí porque, em se tratando de Oscar, nunca se sabe.

- Melhor ator coadjuvante

A mais disputada?

Albert Brooks (Drive)
Cristopher Plummer (Toda Forma de Amor)
Kenneth Branagh (Minha Semana com Marilyn)
Armie Hammer (J.Edgar)
Nick Nolte (Warrior)
Jonah Hill (O Homem que Mudou o Jogo)
Patton Oswalt (Jovens Adultos)
Erza Miller (Precisamos Falar Sobre Kevin)
Brad Pitt (A Árvore da Vida)
George Clooney (Tudo Pelo Poder)
Alan Rickman (Harry Potter e as Relíquias da Morte, Parte 2)
Andy Serkis (Planeta dos Macacos: A Origem)

Brooks e Plummer são os francos-favoritos, aparecendo nas principais premiações. Branagh também tem figurado constantemente entre os indicados na categoria. Nolte é um veterano em um papel difícil, e tem grandes chances de fazer o corte final. Hammer, Hill, Oswalt e Miller são atores novos e carismáticos, e acredito que no mínimo um deles chegará lá, provavelmente Hammer ou Hill. Quanto a Serkis, se ele não foi indicado por seu Gollum de O Senhor dos Anéis, duvido muito que consiga com seu símio Cesar. Já quanto a Rickman, sou brasileiro e não desisto nunca. Mas a verdade é que, com exceção de Brooks e Plummer, o resto é jogo aberto.

- Melhor atriz coadjuvante

Se "conjunto da obra" contasse...

Jessica Chastain (Histórias Cruzadas, A Árvore da Vida, O Abrigo, qualquer coisa)
Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)
Berenice Bejo (O Artista)
Janet McTeer (Albert Nobbs)
Melissa McCarthy (Missão Madrinha de Casamento)
Shailene Woodley (Os Descendentes)
Vanessa Redgrave (Coriolanus)
Carey Mulligan (Shame)
Evan Rachel Wood (Tudo Pelo Poder)

Obviamente, se Chastain não aparecer na lista final, foi por competição entre seus próprios papéis. Mas acredito numa indicação por Vidas Cruzadas. Spencer e Bejo aparecem bem cotadas. Meu palpite é que as duas vagas restantes estão entre McTeer, McCarthy e Woodley.

Enfim, planejo fazer um pano geral das categorias de roteiro e técnicas antes da indicações, se o tempo permitir. Domingo é a cerimônia do Globo de Ouro e, lógico, o blog vai cobrir. Até lá!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Grandes diretores: Pedro Almodóvar

Pedro Almodóvar é um daqueles poucos casos em se tratando de cinema que pode-se dizer que até quando é ruim, é bom. Não que ele seja ruim com frequência, na verdade. Maior expoente do cinema espanhol moderno, Almodóvar já dirigiu 19 longas-metragens em uma carreira que cobre três décadas. Conhecido por sua estética extremamente peculiar, muitas vezes beirando o surrealismo de seu conterrâneo Buñuel, e personalidade excêntrica, seus filmes comumente tocam em problemas delicados do cotidiano. Particularmente, o diretor já abordou o tema da homossexualidade em vários de seus filmes (Almodóvar é abertamente homossexual) e dirigiu vários longas que têm como teor fundamental a vida e os problemas enfrentados pelas mulheres no mundo moderno.

Almodóvar, nascido em 1949 em Calzada de Calatrava, Espanha, começou sua carreira fazendo filmes experimentais, curtas e flertes com o teatro (que guiariam seus filmes, posteriormente) na década de 1970. Seu primeiro longa, Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão, estreou em 1980 e nos anos seguintes o diretor se manteve bastante ativo, conquistando um público cativo. Embora esta fase inicial da filmografia de Almodóvar seja menos conhecida, se destaca o começo da parceria do diretor com atores como Antonio Banderas, Marisa Paredes e Carmen Maura, que seriam nomes constantes em suas obras. O sucesso, porém, veio realmente com a comédia de humor negro Mulheres a Beira de um Ataque de Nervos, de 1988. O filme, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, apresentou algumas das características que seriam marcantes do cinema de Almodóvar: humor ácido, estética quase escrachada e foco nas personagens femininas.

Com a fama, a década de 1990 se abriu para Almodóvar e se tornou palco de alguns de seus melhores filmes. A sensualidade, outro ponto extremamente notável de suas obras, se apresentou em dois dramas com tons eróticos que passariam a figurar entre seus filmes mais famosos, Ata-me e Carne Trêmula. Voltados para o relacionamento entre casais e triângulos amorosos, algo um tanto incomum para o cineasta, é possível afirmar que ambos possuem o sexo como elemento fundamental ou mesmo como protagonista. Mas foi em 1999 que Almodóvar apresentou ao mundo o filme que muitos (eu, incluso) consideram sua obra-prima, Tudo Sobre Minha Mãe. Apesar de apresentar temas pesados como a morte de um filho, a transexualidade e a AIDS, a obra flui com uma leveza impressionante. As atuações são as melhores entre todos os filmes de Almodóvar, a fotografia tem momentos de pura genialidade e todos os aspectos do filme parecem funcionar perfeitamente em harmonia. O filme ganhou várias premiações de Melhor Filme Estrangeiro, como o Oscar, o Globo de Ouro e o BAFTA.

Na década seguinte, dois filmes se destacam. Fale com Ela viria a se tornar, provavelmente, o filme mais famoso da carreira do diretor. A amizade entre um jornalista e um enfermeiro que se unem por estarem em uma situação parecida - ambos cuidando de uma mulher em coma - é um dos roteiros mais surpreendentes e sagazes dos últimos tempos, e que rendeu a Almodóvar um Oscar. Se Tudo Sobre Minha Mãe é um filme de temas fortes, mas extremamente leve, Fale com Ela é um filme simples, mas extremamente pesado. Já Volver, estrelado por Penélope Cruz, é um drama familiar que também explora, ainda que de maneira inusitada, questões a respeito da espiritualidade. O final surpreendente e o tema "mulherzinha" (sem qualquer desmérito, pelo contrário) voltam a aparecer com força no cinema de Almodóvar.

Depois do basicão, mas interessante, Abraços Partidos, Almodóvar voltou a explorar o surrealismo e a utilizar cores de thriller em seu A Pele Que Habito (cuja resenha você pode conferir aqui no blog). Com uma carreira recheada de filmes polêmicos, aparições amalucadas e um jeito extremamente espontâneo, Almodóvar é uma das caras mais famosas e atuantes do cinema europeu contemporâneo. Ele já flertou com os filmes noir, os dramalhões, o erótico e o surrealismo, entre outras tantas experiências, sempre de maneira original. Seus filmes são uma mostra de como é possível e válido reaproveitar esquemas clássicos, reconstruí-los e obter resultados imprevisíveis e positivos, e como o cinema é extremamente reinventável, em essência.


Ridley Scott volta com Prometheus

Ridley Scott dirigiu dois dos mais influentes filmes de ficção científica de todos os tempos, Alien e Blade Runner. Juntos, esses filmes mudaram todos os parâmetros estéticos do gênero e abriram um leque de novas possibilidades. Alien permanece o filme mais assustador que já vi na minha vida inteira. Sim, assustador, já que Scott foi o responsável pela primeira mistura de terror e ficção científica no cinema. Com uma premissa apavorante e uma  tagline genial (talvez a mais genial já feita) - No espaço, ninguém pode ouvir você gritar -, Alien mudou os conceitos do cinema de ficção e deu uma origem a uma série, composta por um dos melhores filmes de James Cameron, muito mais voltado à ação do que ao terror, e dois filmes medíocres dirigidos por David Fincher (em sua estreia e pior momento de sua carreira) e Jean-Pierre Jeunet. O fato é que trinta anos após dirigir Blade Runner, Ridley Scott volta a dirigir um filme de ficção científica com Prometheus.

Durante muito tempo se especulou que o longa seria uma prequel direta para o primeiro filme da série Alien. Porém, Scott já desmentiu tais teorias e afirmou que sim, o filme se passa no mesmo universo e pouquíssimo tempo antes do lendário primeiro filme, mas Prometheus terá uma história própria, funcionando mais como uma espécie de universo expandido. Sendo assim, o teor do novo filme do diretor britânico permanece ainda em grande parte uma incógnita, coisa que o trailer, divulgado em dezembro, não faz questão de melhorar. Porém, os efeitos especiais parecem estar extremamente caprichados e fiquei com a sensação de que, enfim, toda a atmosfera sombria do Alien de 1979 está de volta.

Você pode conferir o trailer aqui:

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Flashback: Taxi Driver

Existem certos anos que são especiais para algum determinado aspecto cultural. Pense em 1991 para o rock e veja a quantidade de álbuns lendários que foram lançados naquele ano, por exemplo. Smells Like Teen Spirit, do Nirvana, Ten, do Pearl Jam, Achtung Baby, do U2, o Black Album do Metallica, Blood Sugar Sex Magik do Red Hot Chilli Peppers e Arise, do Sepultura, só para citar alguns. Foi um ano em que tudo funcionou para o rock. Em 1991, o mundo era rock. Se pudermos fazer algo semelhante com o cinema, eu diria que precisamos olhar para 1976. Basta uma análise rápida nesse ano para entender por quê. Sidney Lumet lançou nesse ano sua obra-prima, Rede de Intrigas, um filme sobre televisão que 36 anos depois ainda é talvez sua paródia mais pontual e sagaz; Alan J. Pakula lançou o maior thriller político de todos os tempos, Todos os Homens do Presidente; dois dos mais importantes filmes de terror do cinema foram lançados, Carrie, a Estranha, de Brian de Palma, e A Profecia, de Richard Donner; Rocky, de John G. Avildesn, conquistou plateias no mundo todo; no Brasil, Dona Flor e Seus Dois Maridos batia recordes de bilheteria. E para coroar tudo isso, Martin Scorsese não ficou para trás e lançou o que seria um marco na sua carreira e o levaria à condição de estrela em Hollywood: Taxi Driver.

Scorsese cria um conto urbano ambientado em uma Nova York de prostituição e marginalidade - ou pelo menos é assim que ela é vista pelo protagonista, Trevis Brickle (o magnífico Robert De Niro). Um veterano da Guerra do Vietnã, Travis dirige seu táxi pela noite da cidade mais importante do mundo, tem como únicos amigos os colegas de profissão e usa todo seu pouco tempo livre vendo filmes pornô em cinemas. Ele não é, de forma alguma, o que poderíamos chamar de um cara simpático. Travis obviamente não conseguiu se ajustar novamente à sociedade ao voltar da guerra e passa um longo tempo alimentando ideias de como as ruas de Nova York deveriam ser "limpadas" de toda sua sujeira, ou seja, as prostitutas e marginais. Ele começa a sair com Betsy (Cybill Shepherd), uma voluntária no comitê de eleição do senador Palantine, que está concorrendo à presidência, mas o relacionamento não vai a lugar algum quando Betsy é incapaz de se conectar com Travis.

Pouco a pouco, Travis vai mergulhando em um redemoinho de insanidade. Ele compra uma arma, raspa a cabeça e passa a fantasiar a ideia de se tornar um justiceiro. Ele desenvolve uma obsessão pelo senador Palatine e passa a acreditar que deve matá-lo, mas seus planos são frustrados. Porém, é quando conhece Iris (Jodie Foster, revelando-se para o mundo), uma prostituta de 12 anos, que Travis atinge o ápice de seu tormento mental. Desenvolvendo uma afeição pela garota, ele decide "salvá-la" do mundo da prostituição, e para isso ele decide que chegou a hora de usar sua arma para valer - e o tiroteio que se segue é uma das cenas mais violentas do cinema (e que deveria ter sido ainda mais gráfica, mas Scorsese acabou precisando editar digitalmente o sangue da cena para que ele não ficasse tão evidente, o que poderia deixar a classificação do filme ainda mais pesada).

Toda a estrutura de Taxi Driver estava a frente do cinema da época. O roteiro não apresenta personagens essencialmente carismáticos - todos parecem estar de uma maneira ou outra, "corrompidos" -, deixa muitas perguntas sem respostas, toca em temas delicadíssimos ainda hoje, em 2012, como a prostituição infantil e apresenta um dos desfechos mais controversos e discutidos do cinema. A sequência final do filme, onde o taxista é saudado como um herói pela mídia e por Betsy aconteceu realmente ou é apenas um delírio de um Travis agonizante em seus últimos momentos? Scorsese também não poupa o espectador: ele apresenta um mundo cinza, destruído por seus próprios paradoxos e pilares frágeis em que resolveu se apoiar.

Taxi Driver se tornou um dos filmes mais polêmicos de sua época, foi indicado à 4 Oscars e virou presença obrigatória de qualquer lista de melhores do cinema nos anos posteriores. Scorsese disseca a loucura como um dos trágicos produtos naturais do mundo moderno. Travis e Iris são dois personagens que jogaram suas cartas do modo como o mundo as apresentou, unidos em sua incompletude contemporânea, em seu distanciamento dos padrões e no fato de serem um resultado inevitável de um mundo cada vez mais problemático. Unidos, formam um retrato de uma sociedade traumatizada por uma guerra e tentando, da mesma forma que tenta até hoje, apagar as cicatrizes que tomaram conta de seu corpo.

Nota: 5,0 de 5,0