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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Vox Populi ou Quando Jodie Foster e eu defendemos Kristen Stewart

Eu estou plenamente consciente de que esse meu esporádico e reticente blog é pra falar de qualquer coisa sobre cinema e televisão, exceto minhas opiniões pessoais a respeito das fofocas de Hollywood. Essa nunca foi a proposta e nunca será. Entretanto, às vezes precisamos rever algumas opiniões diante de casos especiais, principalmente se o caso específico se revela tão digno de nota.

Daí que o casal favorito do público teen e um dos mais famosos de Hollywood se separou. A essa altura, todo mundo sabe dos detalhes. Kristen Stewart traiu Robert Pattinson com o diretor de seu último filme, Branca de Neve e o Caçador, Rupert Sanders, um homem casado e pai de dois filhos. O caso é fato consumado, os paparazzi caíram em cima e Stewart pediu desculpas publicamente ao namorado. A invasão na vida do casal já estava feita, mas é rotina da indústria, então não chocou ninguém. Poderia ter parado aí, mas não. Semanas se passaram e cada capítulo da separação é coberto com riqueza de detalhes. Os tabloides, alimentados enfim de sua sede por sexo (quando na ausência da violência para explorar), estampam a atriz em suas capas, as revistas falam, o público consome. E nós demonizamos ela. Segregamos ela. Julgamos ela.

Claro, traição é algo ruim. Claro, Pattinson deve estar passando por um dos piores momentos de sua vida. Mas o que disso tudo é da nossa conta? Nada, é claro. Que a imprensa se aproveite do momento não é algo que surpreenda. Estamos acostumados e essa é uma discussão na qual não quero entrar. O que é extremamente irritante é a posição popular de repúdio a Kristen Stewart assumida nos últimos dias. O que era uma questão entre dois casais tornou-se uma caça às bruxas pública, e toda culpa/vergonha/escândalo caiu sobre os ombros de Stewart. Ninguém apareceu para oferecer qualquer palavra de conforto.

Então eu me deparo com esse artigo - http://www.thedailybeast.com/articles/2012/08/15/jodie-foster-blasts-kristen-stewart-robert-pattinson-break-up-spectacle.html - assinado pela talentosíssima Jodie Foster e me recordo porque ela é uma de minhas atrizes - e pessoas - favoritas e que ainda existe esperança na humanidade. Foster faz uma reflexão de sua própria trajetória ao pensar no "escândalo Stewart" e conclui que esse é um mundo cruel para atores, que são as Marias Madalenas favoritas da sociedade. E como somos cruéis em apedrejar! Lançamos nossas pedras com vontade, mão cheia e determinação nos olhos, lançamos nossas expectativas irracionais, nossas hipocrisias e nossas vaidades. Ninguém sabe o que se passa na vida de Stewart e Pattinson, ninguém sabe o que eles pensam e desejam e ninguém, portanto, possui o direito de julgar nada. Mas julgamos, ah, como julgamos. É para isso que as celebridades existem, afinal.

E o mundo pode ser bem cruel com Kristen Stewart. Ela é uma mulher jovem e bonita. Ela, como mulher, ainda paga o preço de ter mordido a maçã. Não vejo muita atenção das revistas de fofoca em Rupert Sanders, e não, isso não acontece por ele ser menos famoso. Fosse o contrário e Pattinson tivesse traído, você saberia tudo a este ponto a respeito da "outra". Mas você sabe apenas o essencial sobre Sanders, e sabe também que ele é um marido levado à traição muito arrependido, e queira Deus que tudo termine bem para ele e a esposa. Seguimos disfarçando o machismo desses pensamentos com outros que fazem nos sentirmos melhor com nós mesmos: que Stewart deveria ser um exemplo, apesar de seus 22 anos, que ela se colocou em uma posição inadmissível e que deveria se envergonhar - apesar de seus 22 anos. O povo, afinal, também têm suas sedes a satisfazer.

Não quero dizer que Sanders deveria estar sendo massacrado também, ou que a dor de Pattinson não seja importante, mas simplesmente que vale a pena se perguntar se Stewart já não atingiu sua cota de chicotadas e se ela sequer deveria ter ganhado a primeira. Os erros e acertos de uma pessoa não são, afinal, algo que diz respeito a ela apenas e a quem ela se importar em dividi-los? Todas essas pessoas já não tiveram o bastante? Parece que se o mundo é cruel para os atores, é mais cruel ainda para uma atriz jovem e bonita. E a voz do povo nem sempre é a voz de Deus.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Flashback: Taxi Driver

Existem certos anos que são especiais para algum determinado aspecto cultural. Pense em 1991 para o rock e veja a quantidade de álbuns lendários que foram lançados naquele ano, por exemplo. Smells Like Teen Spirit, do Nirvana, Ten, do Pearl Jam, Achtung Baby, do U2, o Black Album do Metallica, Blood Sugar Sex Magik do Red Hot Chilli Peppers e Arise, do Sepultura, só para citar alguns. Foi um ano em que tudo funcionou para o rock. Em 1991, o mundo era rock. Se pudermos fazer algo semelhante com o cinema, eu diria que precisamos olhar para 1976. Basta uma análise rápida nesse ano para entender por quê. Sidney Lumet lançou nesse ano sua obra-prima, Rede de Intrigas, um filme sobre televisão que 36 anos depois ainda é talvez sua paródia mais pontual e sagaz; Alan J. Pakula lançou o maior thriller político de todos os tempos, Todos os Homens do Presidente; dois dos mais importantes filmes de terror do cinema foram lançados, Carrie, a Estranha, de Brian de Palma, e A Profecia, de Richard Donner; Rocky, de John G. Avildesn, conquistou plateias no mundo todo; no Brasil, Dona Flor e Seus Dois Maridos batia recordes de bilheteria. E para coroar tudo isso, Martin Scorsese não ficou para trás e lançou o que seria um marco na sua carreira e o levaria à condição de estrela em Hollywood: Taxi Driver.

Scorsese cria um conto urbano ambientado em uma Nova York de prostituição e marginalidade - ou pelo menos é assim que ela é vista pelo protagonista, Trevis Brickle (o magnífico Robert De Niro). Um veterano da Guerra do Vietnã, Travis dirige seu táxi pela noite da cidade mais importante do mundo, tem como únicos amigos os colegas de profissão e usa todo seu pouco tempo livre vendo filmes pornô em cinemas. Ele não é, de forma alguma, o que poderíamos chamar de um cara simpático. Travis obviamente não conseguiu se ajustar novamente à sociedade ao voltar da guerra e passa um longo tempo alimentando ideias de como as ruas de Nova York deveriam ser "limpadas" de toda sua sujeira, ou seja, as prostitutas e marginais. Ele começa a sair com Betsy (Cybill Shepherd), uma voluntária no comitê de eleição do senador Palantine, que está concorrendo à presidência, mas o relacionamento não vai a lugar algum quando Betsy é incapaz de se conectar com Travis.

Pouco a pouco, Travis vai mergulhando em um redemoinho de insanidade. Ele compra uma arma, raspa a cabeça e passa a fantasiar a ideia de se tornar um justiceiro. Ele desenvolve uma obsessão pelo senador Palatine e passa a acreditar que deve matá-lo, mas seus planos são frustrados. Porém, é quando conhece Iris (Jodie Foster, revelando-se para o mundo), uma prostituta de 12 anos, que Travis atinge o ápice de seu tormento mental. Desenvolvendo uma afeição pela garota, ele decide "salvá-la" do mundo da prostituição, e para isso ele decide que chegou a hora de usar sua arma para valer - e o tiroteio que se segue é uma das cenas mais violentas do cinema (e que deveria ter sido ainda mais gráfica, mas Scorsese acabou precisando editar digitalmente o sangue da cena para que ele não ficasse tão evidente, o que poderia deixar a classificação do filme ainda mais pesada).

Toda a estrutura de Taxi Driver estava a frente do cinema da época. O roteiro não apresenta personagens essencialmente carismáticos - todos parecem estar de uma maneira ou outra, "corrompidos" -, deixa muitas perguntas sem respostas, toca em temas delicadíssimos ainda hoje, em 2012, como a prostituição infantil e apresenta um dos desfechos mais controversos e discutidos do cinema. A sequência final do filme, onde o taxista é saudado como um herói pela mídia e por Betsy aconteceu realmente ou é apenas um delírio de um Travis agonizante em seus últimos momentos? Scorsese também não poupa o espectador: ele apresenta um mundo cinza, destruído por seus próprios paradoxos e pilares frágeis em que resolveu se apoiar.

Taxi Driver se tornou um dos filmes mais polêmicos de sua época, foi indicado à 4 Oscars e virou presença obrigatória de qualquer lista de melhores do cinema nos anos posteriores. Scorsese disseca a loucura como um dos trágicos produtos naturais do mundo moderno. Travis e Iris são dois personagens que jogaram suas cartas do modo como o mundo as apresentou, unidos em sua incompletude contemporânea, em seu distanciamento dos padrões e no fato de serem um resultado inevitável de um mundo cada vez mais problemático. Unidos, formam um retrato de uma sociedade traumatizada por uma guerra e tentando, da mesma forma que tenta até hoje, apagar as cicatrizes que tomaram conta de seu corpo.

Nota: 5,0 de 5,0