sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Análise: Amor

Poucos filmes conseguem retratar o fim da vida de maneira tão forte, brutal e inevitável, mas ainda assim tão poética quanto Amor, nova obra do diretor austríaco Michael Haneke. Amor é uma surra cinematográfica: o tipo de filme que não te dá paz, te conduz até um desfecho que você sabe bem como será, mas que te prende em uma teia de roteiro sólido, belas tomadas e direção caprichada, de forma que você simplesmente se recusa a sair enquanto tudo não estiver terminado. Haneke é um diretor de imenso talento, com uma filmografia vasta e que, assim como em Amor, toca em temas delicados, sempre com uma estética rica. Com seu novo longa, porém, seu reconhecimento internacional parece ter triplicado, em boa hora. O maior exemplo disso são as cinco indicações do filme ao Oscar (filme, filme estrangeiro, direção, atriz e roteiro original). O sucesso é justificado. Ao mesmo tempo em que Amor é um dos filmes mais chocantes dos últimos tempos, é também um dos mais bonitos.

Os veteraníssimos Jean-Louis Trintignant (que atuou, entre outros, em Um Homem, Uma Mulher, Z e A Fraternidade é Vermelha) e Emanuelle Riva (que estreou em Hiroshima, Meu Amor e fez também A Liberdade é Azul, esse último após uma longa pausa na carreira) são Georges e Anne, um casal de professores de música aposentados na faixa dos 80 anos que mora em um apartamento em Paris. Após uma cirurgia para desbloquear uma artéria sair errado, Anne sofre um derrame e fica com o lado direito do corpo paralisado, tendo que se conformar com uma vida em uma cadeira de rodas. Porém, esse é apenas o começo da deterioração de sua saúde.

Essa é a premissa simples de Amor. A partir dela, somos convidados a assumir o mesmo papel de Georges: assistir a irreversível e lenta partida de Anne. Enquanto marido tenta tornar a vida da esposa o mais confortável possível, ainda que tenha que superar os próprios sentimentos primeiro, ela se recusa a aceitar seu estado. E quem poderia julgar? Haneke é impiedoso. Por meio de pequenas cenas, gestos e diálogos, eles nos aproxima de Georges e Anne e nos faz entender tudo que se passa pela cabeça dos dois diante da fatalidade. Sua câmera quase não se move, de modo que às vezes filma tudo sem pudor, enquanto outras vezes prefere mostrar o nada. A técnica é usada com sabedoria, e o efeito é sempre impactante. Riva tem o trabalho mais difícil, o de se mostrar frágil e gradativamente incapaz, mas Trintignant tem uma missão tão delicada quanto, a de ser a força onde a princípio não existe nenhuma. Ambos estão impecáveis. Há também a participação de Isabelle Huppert como a filha do casal. Sua personagem funciona como elemento externo, uma ruptura ao casal e sua casa, e é uma adição interessante, embora esporádica.

Amor é um filme extremamente difícil. Seu tema é denso, pesado e toca em uma parte da vida que, embora certa e inevitável, preferimos varrer para debaixo do tapete. Ele nos faz confrontar a perspectiva da morte, de maneira direta, sem rodeios ou floreios. Com exceção das tomadas iniciais, toda a ação se passa dentro do mesmo apartamento, o que aumenta a sensação de aprisionamento pelo destino. Apesar disso, é um filme com uma beleza que nasce da simplicidade de sua proposta. O "amor" do título não é decorativo nem está ali para enganar alguém. Mas a vida não só termina como pode ser árdua e cruel antes disso. É a maneira como enfrentamos o que está por vir - e virá, não há jeito - que faz a diferença. Tenho a sensação de que é isso que Haneke quer dizer, no fim das contas.

Nota: 5,0 de 5,0.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Análise: O Som ao Redor

Filmes que retratam a expansão urbana e os choques e tensões decorrentes são bastante comuns nos últimos tempos. O que, na verdade, é algo bastante natural e sintomático. Porém, o tema parece ter encontrado um de seus melhores defensores em O Som ao Redor, primeiro filme de ficção de Kléber Mendonça Filho. Mais ainda, o filme é uma das melhores produções do cinema nacional recente, filho de uma indústria que sofre muitas críticas de maneira bastante injusta. Quando se olha para longe das produções de grandes estúdios - leia-se as comédias genéricas ou os pseudo-dramas que não passam de novelões da Globo Filmes -, descobre-se boas pérolas nacionais, com roteiros e direção que não devem nada às produções de países com um cinema consolidado há anos.

O Som ao Redor não explica-se demais, deixando ao público juntar muitas peças de seus vários quebra-cabeças, e isso trabalha a seu favor. Sua premissa básica é acompanhar a rotina de um grupo de moradores de uma rua de classe média alta de Recife. Essa rotina é abalada após a chegada de uma equipe de segurança que é contratada pelos moradores para tentar conter a criminalidade ascendente da região, apesar de ganhar a desconfiança de muitos. Debaixo da trama, existem várias camadas de dramas e situações peculiares a cada personagem, ainda que seja inadequado falar em sub-trama já que cada camada contribui com peso igual para a história. Em especial, e uma das maiores metáforas do filme, está o duelo da dona de casa e mãe de família, entediada e frustrada com a vida e que coloca os filhos para estudar mandarim além do inglês, contra o cachorro dos vizinhos, que passa as madrugadas latindo.

De muitas formas, Recife é uma metáfora, um cenário que poderia ser qualquer capital do Brasil. O som é o grande e óbvio símbolo do filme. Sempre onipresente e invasivo, ele representa a expansão urbana e suas consequências indesejadas. Um incômodo, representante de tudo que está errado. A vida da cidade grande é barulhenta e paranoica, o filme de Mendonça Filho nos prova de maneira assustadora. A violência a que somos submetidos é apenas a ponta do problema. Porém, há uma discussão mais velada, embora tão significativa quanto, a respeito de conceitos como espaço público e propriedade. Nesse aspecto, o Nordeste e seu histórico de coronelismo é um cenário bastante interessante. A última frase do filme é muito significativa, e seu duplo sentido parece resumir bem a discussão da fina linha entre liberdade e aprisionamento nas capitais do progresso e dos condomínios de grades e sistemas de vigilância. A sensação de encarceramento, aliás, seja pelos limites urbanos ou pela própria vida que os personagens levam é constante e reforçada pelo fato de que a maior parte das passagens do filme acontece na mesma rua.

De modo geral, O Som ao Redor consegue explorar uma pluralidade de temas, todos relativos à vida no século XXI, sem se perder ou ter seu ritmo prejudicado. Não só o roteiro de Kléber Mendonça Filho é muito bom, como também sua direção é realmente boa. Sem dúvida, já é um dos cineastas brasileiros mais promissores. Também gostei bastante da fotografia, que rende alguns dos planos mais bonitos que já vi no cinema nacional. Créditos a Pedro Sotero e Fabrício Tadeu. O filme tem colecionado prêmios em festivais e mostras em vários lugares como Rio de Janeiro, Gramado, Nova York, Copenhague e Roterdã, e ganhou destaque por entrar na lista de melhores filmes de 2012 do New York Times, reconhecimento bem-vindo e muito justo. É um filme consideravelmente perturbador, que pende fortemente para os malefícios e problemas de ser viver em uma cidade grande nos anos 2010. Mesmo para alguém tão urbano e que vê tantas qualidades e tanta vida na agitação das metrópoles quanto eu, é impossível ignorar a mensagem e reconhecer seu peso.

Nota: 5,0 de 5,0.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Análise: As Aventuras de Pi

Como filmar o que não pode ser filmado? Como expressar emoções tão profundas em meio ao mais simples dos cenários, em uma proposta que limita, por sua própria natureza, um vasto leque de possibilidades? Se você conta com o gênio de um diretor como Ang Lee e o roteiro com toque de mestre de David Magee, isso fica fácil. Trabalhar com cenários limitados ou elenco reduzido não é uma novidade no cinema, mas As Aventuras de Pi, de Ang Lee, consegue se destacar como uma superprodução minimalista ao trabalhar uma premissa de difícil execução com sensibilidade apurada e colocando na medida certa os ingredientes de sua receita. Adaptado do romance de Yann Martel, o filme vai do drama à aventura e à fantasia   com fluidez notável, e é provavelmente o filme mais espiritual e carregado de sentimento de Lee até aqui.

O cerne da trama é simples: Pi (Irrfan Khan), um indiano dono de um zoológico no Canadá, conta a um escritor a respeito dos 227 dias que sobreviveu sozinho como náufrago em um barco após um naufrágio que matou sua família, tendo como única companhia um tigre-de-bengala, animal do zoológico de seu pai, quando tinha 16 anos (interpretado pelo estreante Suraj Sharma). Sobreviver à natureza, como Pi logo percebe, é apenas parte do problema, já que o isolamento e a solidão cobram um preço bastante alto por sua presença indesejada e a linha entre realidade e ilusão começa a se desfazer cedo demais.

Porém, sob essa superfície, mas não exatamente ocultos, estão temas relativos à natureza humana que se tornam altamente pertinentes e significativos conforme o filme avança para seu desfecho. A essência e a importância da religião são o tema que salta primeiro aos olhos - o escritor procura Pi em busca de uma história que o inspire a acreditar em Deus -, contudo também se faz presente uma discussão, de maneira sutil e impressionante, sobre os limites do ser humano e sua capacidade de sobreviver, reerguer e recomeçar, mesmo após a maior das tragédias. De certo modo, alguém poderia dizer que, além disso tudo, As Aventuras de Pi é um história de como contar uma história. Essa interpretação provavelmente está tão certa quanto todas as outras. No final, a mensagem que fica é bastante diferente daquela que você poderia esperar no começo, mas é sem dúvida uma das mais importantes e relevantes dos últimos tempos.

A direção de arte e a fotografia de Claudio Miranda são responsáveis por dar vida e versatilidade a um cenário que por cerca de 70% do filme se resume a um barco e ao oceano. Unidos, formam um milagre cinematográfico. Os efeitos especiais são provavelmente os melhores do ano, com destaque para a cena do naufrágio e claro, o impressionante tigre de CGI, uma das criações mais verossímeis da computação gráfica para cinema. Tecnicamente impecável e indicado a 11 Oscars (filme, direção, roteiro adaptado, fotografia, montagem, efeitos especiais, mixagem de som, edição de som, design de produção, trilha sonora e canção), As Aventuras de Pi coroa em especial o talento de duas pessoas: Suraj Sharma, olhos, ouvidos, corpo e coração de Pi. Ainda que sua performance não tenha sido um reconhecimento universal, injustamente, ele segura com mérito e basicamente sozinho a missão de levar às câmeras até a mais sutil das emoções da história. O outro destaque, claro, é Ang Lee e sua direção sempre competente. Ele não tenta revolucionar a maneira de fazer cinema aqui (Em O Tigre e o Dragão suas "brincadeiras" são mais explícitas, por exemplo), porém é justamente a simplicidade da proposta o que a torna especial. O produto final é um filme esplendidamente realizado e, possivelmente, um dos mais bonitos dos últimos tempos.

Nota: 5,0 de 5,0.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Análise: Detona Ralph

Quem me conhece, sabe que eu gosto bastante de video games. Tendo sido criado com um Super Nintendo e, posteriormente, com um Nintendo 64 em casa, não poderia ser de outra maneira. O fato de eu ter três consoles em casa talvez fale por si só, embora eu tenha que fazer meu melhor para dividir a atenção entre eles com tempo limitado. Esse amor é em parte responsável por eu ter gostado tanto de Detona Ralph, a mais recente animação 3D da Disney. Outro responsável é muito mais simples: o filme é realmente bom. Apesar de sua aura atrativa para gamers, ele pode ser muito bem apreciado, em função de seus temas universais, por quem não tem muito contato com o universo dos video games, e esse é um ponto forte a seu favor. Em especial, ele é uma lufada de ar fresco depois de dois anos com poucas animações que realmente conseguiram trazer algo novo ou simplesmente empolgar fãs pelo mundo.

Explorando um universo vastíssimo, o roteiro decidiu focar seus protagonistas no mundo dos arcades, ou fliperamas, como ficaram conhecidos no Brasil, os tradicionais video games operados a base de moedas. Detona Ralph é o vilão do game Conserta Felix Jr., onde antagoniza o personagem título promovendo uma onda de destruição, até ser fatalmente vencido ao fim de cada partida. O problema é que fazendo a mesma coisa diariamente por trinta anos, Ralph está em uma crise de identidade. Cansado de viver no ostracismo, ser repudiado pelos outros personagens de seu jogo por suas vilanias e incapaz de encontrar ajuda com os outros colegas vilões - no mundo de Detona Ralph os personagens podem viajar pelo sistema de cabos da loja onde moram e entrar em outros jogos -, Ralph decide que está na hora de uma mudança de ares. Em seu caminho atrás de reconhecimento e uma medalha de herói, ele conhece outros games e, em um deles, uma simpática garotinha corredora, Vanellope, com quem forma um laço. Mas, como não poderia deixar de ser, a tentativa de Ralph de mudar a ordem pré-estabelecida coloca o mundo dos video games em súbito perigo - e é aí que as coisas começam a ficar intensas.

O filme dirigido por Rich Moore é uma proposta leve e divertida. Ele puxa temas bastante consagrados - isolamento, a busca de um lugar no mundo e a revolta com a ordem existente - e os trabalha sob uma roupagem diferente e uma abordagem inovadora e sem peso. O roteiro te leva pelos lugares onde você espera que ele irá passar, sem que você se importe, e conduz para um desfecho que, embora esperado, é completamente satisfatório e realizado com emoção. O visual também é exuberante, e se beneficia do universo gamer para criar cenários diversificados e ricos, ora sombrios, ora imensamente coloridos, de acordo com as necessidades. Os personagens principais são bem construídos: Vanellope é uma das melhores personagens femininas de animação dos últimos tempos, fofa quase sempre e irritante quando necessário, Ralph é o perfeito vilão em busca de redenção e o par de coadjuvantes, Conserta Felix Jr. (não é preciso pensar muito para ver em quem esse carpinteiro foi inspirado) e a Sargento Calhoun (que é mais ou menos como seria Samus Aran, da série Metroid, em um jogo que seguisse a linha de Call of Duty) são adições bastante interessantes.

Satisfatório para o público em geral, mas com apelo particular para os fãs de video game, Detona Ralph pode não ser uma sequência desenfreada de referências a jogos e personagens na tela. Verdade, muitos personagens foram licenciados para fazer aparições, e temos Bowser, Sonic, Zangief, Chun Li (numa cena piscou-perdeu), entre outros fazendo pontas. Mas a intenção do filme nunca foi fazer uma homenagem - acaba sendo, mas de maneira indireta. Explorando um universo rico e cheio de possibilidades, Detona Ralph quer apenas contar sua história, e esse é o foco que quem vai assistir deve ter em mente. Assim, vai curtir sempre que reconhecer algo na tela e aproveitar uma grande animação, indicada com justiça ao Oscar de melhor animação.
Ps.: Antes do filme está sendo exibido o curta O Avião de Papel, também indicado ao Oscar ontem, na categoria curta de animação. Outro que vale muito a pena, história simples e bonita.

Nota: 5,0 de 5,0.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Análise: As Vantagens de Ser Invisível

"We accept the love we think we deserve"

Eu me lembro claramente que quando estava no colégio (e lá se vão cinco anos desde que terminei o ensino médio), uma das coisas que eu evitava ao máximo fazer era demonstrar conhecimento a respeito de um determinado assunto. Eu sempre tive inclinação e habilidade para as áreas humanas, de forma que gostava de pesquisar e aprender sobre história, geografia, literatura e línguas. Apesar disso, o mundo de um adolescente é, a princípio, cruel, e dar sinais de qualquer interesse maior do que é "saudável" em assuntos curriculares nunca é visto com bons olhos. Então você segue a dança. Comecei essa resenha com esse pedaço de lembrança porque foi ele que me permitiu me conectar logo cedo com o protagonista de As Vantagens de Ser Invisível, filme do diretor de primeira viagem Stephen Chbosky, adaptado de seu próprio livro.

Pela lente e enredo de Chbosky seguimos Charlie (Logan Lerman), um garoto que, como meu eu adolescente e tantos outros no mundo, busca algumas coisas fundamentais: aceitação, pertencimento, a sensação de ser importante para algo ou alguém. Sugado de seu mundo infantil de fantasia para um mundo mais frio e incerto, após sofrer uma série de perdas e tropeções em pedras no caminho, seu único objetivo é sobreviver ao ensino médio. E ele está convencido de que terá que fazer isso sozinho, até conhecer Sam (Emma Watson) e seu irmão, Patrick (Ezra Miller). Sam e Patrick, acostumados a não pertencerem ao grupo dos populares e seguros de quem são, tornam-se a chance de redenção para o solitário Charlie, que se vê, pela primeira vez, parte de algo. Mas logo fica claro que os dois irmãos possuem demônios tão fortes quanto os de Charlie para destruir, e Charlie, que tanto precisa de ajuda, também pode ajudar.

Partindo de uma premissa simples - a adolescência pode ser um inferno para os que a cruzam sozinhos (e quase todos se sentem assim em algum momento) -, Chbosky consegue pôr vida e esperança em uma trama que ele conhece tão bem e que em momento algum perde seu ritmo ou deixa sua mensagem se perder. O cenário de "adolescente que precisa aprender a crescer" não é nem de perto algo novo - desde a década de 1980 o cinema americano já o explora, às vezes com ótimos resultados, às vezes terminando em verdadeiras tragédias -, porém o autor e diretor de As Vantagens de Ser Invisível sabe aonde quer ir e exatamente o que quer dizer, ainda que não faça nenhuma revolução cinematográfica ou precise disso. Assim como depois da tempestade vem a bonança, todo inferno há de acabar e o que vem depois é maravilhoso, mas para isso talvez seja necessário vencer os próprios medos primeiro.

É claro, é impossível deixar de elogiar o trio de protagonistas. Logan Lerman é conhecido como o personagem-título da série Percy Jackson, Ezra Miller ganhou os críticos como o também personagem-título de Precisamos Falar Sobre o Kevin e se você esteve em algum lugar do planeta Terra nos últimos doze anos, deve saber que Emma Watson interpretou Hermione Granger na série Harry Potter. Acredito que o filme seja o melhor momento até aqui de todos os três: Lerman segura bem o papel mais difícil do que parece, Miller mais uma vez rouba cenas e Watson teve uma evolução incrível como atriz na última década. E, para fechar, deixo meu último elogio para David Bowie e sua Heroes, que pode muito bem daqui para a frente ser conhecida apenas por "a música do túnel". Poucas vezes letra e melodia se casaram tão bem com o que aparece na tela e foram tão pertinentes. Graças a Bowie e As Vantagens de Ser Invisível, não resta dúvida: podemos ser heróis. Ainda que só por um dia.

Nota: 5,0 de 5,0.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Análise: Argo

"Argo fuck yourself"

Ben Affleck não é um grande ator. Na verdade, na maior parte das vezes ele é simplesmente mediano, no melhor. Porém, a cada novo trabalho me convenço que Affleck é também um profissional maravilhoso e extremamente competente quando está por trás das câmeras. Ele já havia dado uma mostra disso com seu roteiro, em parceria com Matt Damon, de Gênio Indomável (1997), que transformou os dois atores em vencedores do Oscar. Seus trabalhos posteriores como diretor foram recebidos com entusiasmo pela crítica, mas o consenso parece apontar que Argo, seu trabalho mais recente, é também sua melhor investida no cinema até aqui. O thriller político é baseado em um evento real bastante peculiar na longa de história de rivalidade entre Estados Unidos e Irã.

Em 1979, o mundo assistiu o que foi talvez o momento mais incerto na política externa americana desde a Crise dos Mísseis de Cuba. Enfurecido pelo asilo político que os Estados Unidos oferecia ao ex-Xá da Pérsia, Reza Pahlavi, e incitado por seu novo governante, o Aiatolá Khomeini, um grupo de militantes iranianos invadiu a embaixada americana e fez mais de 50 reféns, numa crise que se arrastaria por meses. Porém, sem que os iranianos desconfiassem, seis funcionários conseguiram escapar e buscaram refúgio na casa do embaixador canadense. Coube a Tony Mendez (aqui interpretado pelo diretor Affleck), especialista em resgates da CIA, fazer a "extração" dos seis diplomatas. O estratagema montado é,  não a toa, realmente digno de filme, com Mendez entrando no Irã sob disfarce de um produtor procurando uma locação exótica para um suposto longa de ficção científica, o tal Argo do título.

O roteiro assinado por Chris Terrio é muito bom, embora não fuja dos clichês do gênero ou deixe de adicionar fatos à história real, em prol da linguagem cinematográfica. Existem as forçações de barra para o lado americano que se poderia esperar do filme, culminando em uma quase total omissão do Canadá na operação, quando o país foi chave para todo o processo, e uma cena final nada sutil e que flerta com o brega descaradamente. Ainda assim, o filme é tecnicamente muito bem montado e suas cenas de tensão e suspense realmente funcionam. A direção de Affleck é notável e faz com que uma trama que poderia soar como "acho que já vi isso antes" ganhe vida própria. E, em meio a um elenco estelar, os destaques ficam por conta de Alan Arkin, interpretando um produtor de Hollywood - inventado para o filme - que oferece ajudas práticas a Mendez para driblar as burocracias da indústria do cinema e completar sua missão, e John Goodman, como o maquiador John Chambers (que trabalhou em O Planeta dos Macacos), que também oferece sua consultoria a Mendez.

Argo foi indicado a cinco Globos de Ouro (filme, diretor, roteiro, ator coadjuvante para Arkin e trilha sonora para o genial Alexandre Desplat) e é altissimamente cotado para ser o retorno de Affleck à cerimônia do Oscar. De toda maneira, é um filme que vale a pena ser assistido e que compensa suas falhas, além de sinalizar um amadurecimento de Affleck e uma nova vida no cinema para ele. Não é um trabalho de gênio, mas é entretenimento garantido e segura as próprias pretensões com bastante habilidade.

Nota: 4,5 de 5,0.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Análise: O Segredo da Cabana

Cinco jovens americanos decidem se afastar do mundo e passar um fim de semana em um lugar isolado para dedicar-se a experiências que envolvem muito sexo e drogas. No caminho, encontram um homem muito estranho, que os adverte dos perigos da região. Eles vão em frente mesmo assim, sem saber que estão libertando um mal antigo e poderoso. Um a um, eles são mortos das maneiras mais sanguinolentas possíveis. No final, a última sobrevivente, uma garota completamente comum e que escapou dos últimos assassinatos correndo e gritando, consegue, de maneira inacreditável, conter a ameaça e voltar à sua vida normal. Resumido assim, temos um modelo quase universal do "terror universitário americano", consagrado na década de 1980 e que ainda dá frutos. Um olhar desatento poderia colocar O Segredo da Cabana nesse esquema. Ledo engano. Um dos filmes mais criativos dos últimos tempos, ele consegue ao mesmo satirizar esse estilo e ser um excelente trabalho de cinema de terror - um feito duplo notável.

Colaboração do diretor e roteirista Drew Goddard e do também roteirista Joss Whedon (que dirigiu, esse ano, Os Vingadores), o filme é ao mesmo tempo homenagem e crítica aos slasher movies, aquele estilo de terror com muitas mutilações, cabeças decepadas e sangue espirrando na tela - homenagem ao gênero em si e sua história, mas crítica ao que ele se tornou nos últimos anos, com roteiros genéricos e um advento do que muitos chamam de torture porn, onde os personagens são torturados para deleite do público. A distinção pode ser tênue, mas é muito clara para Goddard e Whedon, que buscam resgatar conceitos com uma atmosfera real de medo e um roteiro inteligente, que faça o espectador realmente torcer pelos personagens, e não por seu fim sangrento (ainda que eles tenham que acontecer, de qualquer forma).

No balanço de amor e ódio, O segredo da cabana é um filmaço de terror, do tipo que é melhor não adiantar qualquer coisa da história e deixar o espectador juntar as peças conforme assiste. Basta dizer que está perfeita a combinação entre terror, suspense e comédia (não se pode nem dizer alívio cômico - apesar de ter uma trama "séria", o longa usa a comédia quase como um elemento de ligação do roteiro, um humor negro muito satírico e com uma mensagem bastante interessante por trás). Fica claro que, no fundo, por trás do filme existem dois apaixonados pelo terror, e alguém mais atento conseguirá captar referências a vários clássicos do gênero. No elenco do filme estão veteranos como Richard Jenkins e Bradley Whitford, enquanto o time dos jovens isolados e lutando pela vida conta com o "Thor" Chris Hemsworth e Kristen Connolly no papel da protagonista, claramente um arquétipo de todas as heroínas de terror dos anos 1980 que você lembrar.

O resultado final é um filme que poderia até se tornar esquizofrênico entre tantas referências e intenções, mas sai bastante leve e, em sua pretensiosa despretensão, consegue atingir sua meta de trazer algo novo para o gênero. Apesar disso, fica o aviso de que um certo gosto por terror e no mínimo uma tolerância a sangue nas grandes telas é necessária - certa sequência na parte final do filme é provavelmente umas das maias sangrentas já produzidas. Para os fãs, a dica é certa: é um dos melhores terrores do ano, e forte candidato ao topo desse posto. Todas as sessões do filme no Festival do Rio já foram exibidas, mas calma: nos próximos meses ele entrará em cartaz no grande circuito. Não pode deixar a oportunidade passar.

Nota: 4,5 de 5,0.

sábado, 6 de outubro de 2012

Análise: Great Expectations

Grandes Esperanças, o romance considerado a obra-prima de Charles Dickens, deve ser um dos livros mais adaptados da história do cinema (O Morro dos Ventos Uivantes não deve vir muito atrás). No Festival do Rio desse ano, o público carioca pode conferir em primeira mão a versão do famoso diretor inglês Mike Newell para a grande trama de Dickens, com produção da BBC. E Newell faz seu trabalho, embora sem lá muito brilho. Por ser uma história tão batida nas telas do cinema, ainda que o texto de Dickens seja algo genial, ficava a esperança que essa adaptação pudesse trazer algum elemento novo, que revivesse a obra no âmbito da sétima arte. Não é exatamente o que acontece.

É preciso deixar claro: tecnicamente, não há nada de errado com o filme. Newell é um diretor competente, embora nem sempre brilhante, e em seu Great Expectations o que se vê é uma direção segura, sem dúvida, com um trabalho de fotografia bastante interessante e atuações de peso. Mas talvez esse também seja o grande problema do filme: é tudo tão exato que fica quadrado, com ar de filme para televisão (em termos de linguagem - nenhum preconceito), de manual de cinema. O roteiro é razoavelmente fiel, redondinho, fechadinho. Todas as características técnicas estão em seu lugar, cumprindo seu papel. Ainda assim, fica a sensação de que o filme poderia ter arriscado mais, procurado uma abordagem diferente. Apesar de qualquer competência, dificilmente será uma versão lembrada com muito entusiasmo daqui a alguns anos.

No mais, o grande destaque fica por conta das atuações. Com um texto tão forte, a seleção de atores de ponta escalados não deixa por menos. O leque de personagens clássicos de Dickens é representado por Robbie Coltrane como o advogado Jaggers; Ralph Fiennes, fazendo um grande trabalho com Magwitch; e Helena Bonham Carter, mais uma vez roubando a cena, agora como a sinistra Miss Havisham. Aliás, dá até para pensar que Dickens escreveu sua história em 1860 pensando em Carter, já que o papel cai como uma luva para a atriz. Jeremy Irvine e Holliday Grainger, que interpretam os protagonistas Pip e Estella, estão bem, mas preferi levemente a atuações de Toby Irvine e Helena Barlow, que fazem os personagens enquanto crianças.

Quem quiser conferir, o filme ainda será exibido hoje, dia 6, às 14h e 19h no Fashion Mall, e terça, dia 9, às 14h50 e 21h30 no Shopping da Gávea.

Nota: 3,0 de 5,0.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Análise: Moonrise Kingdom


"I love you, but you have no idea what you’re talking about."

Não é preciso saber muito previamente sobre Moonrise Kingdom ou ser um grande fã de Wes Anderson para apreciar uma hora e meia de excelente cinema. Uma mistura equilibrada e bastante saborosa de comédia, romance, drama, aventura e umas pitadas de fantasia transforma-se no filme mais universal e bem-acabado do diretor. O conto de duas crianças de 12 anos - um órfão e uma menina problemática - que, apaixonadas, fogem para o interior de uma idílica ilha na década de 1960 não se limita em momento algum a ser uma "historinha para crianças", como uma olhada rápida na sinopse poderia enganar. O roteiro de Anderson e Roman Coppola, junto com a direção bem característica de Anderson, tornam o longa uma obra que sintetiza com magia as dificuldades de crescer - e ser adulto - em um mundo cheio de expectativas e requisitos a serem cumpridos.

Nada no filme é mais peculiar que a relação dos protagonistas, Sam e Suzy. Duas crianças problemas, mas que, quando juntas, precisam encontrar a conciliação entre os impulsos juvenis e as responsabilidades da vida adulta. Ao mesmo tempo em que põe em prática a ideia - que já cruzou pelo menos uma vez a cabeça de muitas crianças - de fugir de casa, precisam lidar com situações básicas de sobrevivência e entender os próprios sentimentos um com o outro - a vibração do primeiro amor, que traz muito mais confusão do que completude, a descoberta da própria sexualidade e as dores e delícias de conviver com outra pessoa. E se Suzy se esconde por trás de uma máscara de maquiagem, roupas adultas e tentativas de soar madura, sua própria dificuldade de entender o mundo dos pais - devolvida pela quase infantilidade deles na hora de lidar com os filhos - e seu ato de roubar livros da biblioteca para sentir algum arroubo juvenil entregam o turbilhão de conflitos que a menina carrega. E que criança de 12 anos não carrega?

E é em não exagerar nem deixar a desejar nas tintas de seus personagens infantis - ou pelo menos dentro do possível, considerando a tendência de Anderson de fazer de seus personagens sempre curiosas e divertidas caricaturas (mas nunca caricatos) - que reside um dos grandes méritos do filme. Aqui, entra o contraponto com os personagens adultos, sempre parecendo fugir de seus próprios conflitos e não sabendo lidar com os próprios problemas, em comparação com a franqueza e simplicidade das crianças. Nessa oposição adultos meio crianças e crianças meio adultas, feita com bastante leveza e originalidade, reside, talvez, a moral da história: há cada vez menos equilíbrio num mundo que pede que assim seja, mas dar um pouquinho de ouvido para a criança em nós e a sinceridade que ela grita não faz mal, de vez em quando.

O resto é um esplendor técnico notável. A direção de arte é caprichada, a fotografia de Robert Yeoman é um espetáculo que já vale o ingresso e as atuações são incríveis. Bruce Willis, Edward Norton, Frances McDormand, Bill Murray, Tilda Swinton e Harvey Keitel estão no tom certo no elenco adulto, mas o destaque vai, sem dúvida, para Jared Gilman e Kara Hayward, os protagonistas. O roteiro, abrindo mão muitas vezes da verossimilhança para acrescentar mais valor ao clima de fantasia do longa, brinca com diferentes linguagens e faz 94 minutos passarem voando. A última sessão do filme no Festival do Rio foi ontem, mas logo logo ele entrará em circuito para todo o Brasil. Apenas imperdível.

Nota: 5,0 de 5,0.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Emmy: O dia seguinte


Às vezes arrastado, muitas vezes divertido, com sua cota rotineira de premiações surpreendentes. O 64º Emmy, entregue ontem à noite, não foi nem de perto as três horas de televisão mais divertidas do ano. Precisando ser bastante burocrático para evitar alongar-se demais, o que é sempre um risco em potencial quando se tem tantas categorias, o Emmy fez sua parte de entregar prêmios bem, ainda que isso tenha sacrificado um pouco a diversão do processo. Não que o apresentador Jimmy Kimmel não tenha feito sua parte. Suas tiradas eram realmente divertidas, sua presença de palco é inegável e ele mostrou ser capaz de provocar os indicados com bastante classe.

Talvez o grande problema tenha sido a previsibilidade da cerimônia. Na primeira categoria da noite, já ficou claro que pela terceira vez seguida Modern Family seria o destaque em comédia. Quando Damian Lewis faturou o prêmio de melhor ator em drama, Homeland já tinha dado seu xeque-mate. E se Game Change já era favorita para ganhar como filme para televisão, cada evento da noite parecia um prelúdio para isso. Sim, toda premiação acaba caindo, tradicionalmente, na previsibilidade uma hora ou outra, mas se existe um ritmo interessante na cerimônia, isso fica em segundo plano.

Acho, porém, que no fim das contas nada disso faz diferença. Se muitos dizem que as séries americanas (em especial as dramáticas) estão vivendo sua era de ouro, eu sou obrigado a concordar. Qualquer série na categoria principal de drama faria um vencedor à altura. A qualidade desses produtos transbordava para fora da tela. É verdade, Mad Men e Game of Thrones saíram de mãos vazias, algo chocante em especial para a primeira. Sim, vá lá, dar um Emmy para Jon Cryer nesse momento, com atores como Jim Parsons e Louis C.K. como concorrentes em trabalhos mais atuais - em todos os sentidos -, pareceu bastante precipitado. Apesar de tudo isso, se a intenção era fazer uma grande festa para a arte na televisão, a festa foi feita. Com tantos trabalhos tão bons, não poderia ser diferente.

Ah, sim, quanto às minhas apostas: ainda bem que não me levei a sério. Não fosse pelas óbvias favoritas, como Claire Danes e Maggie Smith, meu resultado seria catastrófico. Por sorte, foi só ruim.

A lista completa de vencedores, você confere aqui:


Série Dramática
Homeland
Série Cômica
Modern Family
Minissérie ou Telefilme
Virando o Jogo/Game Change
Ator de Série Dramática
Damian Lewis, Homeland
Ator de Série Cômica
Jon Cryer, Two And A Half Men
Ator de Minissérie ou Telefilme
Kevin Costner, Hatfields & McCoys
Atriz de Série Dramática
Claire Danes, Homeland
Atriz de Série Cômica
Julia Louis-Dreyfus, Veep
Atriz em Minissérie ou Telefilme
Julianne Moore, Game Change
Ator Coadjuvante em Série Dramática
Aaron Paul, Breaking Bad
Ator Coadjuvante em Série Cômica
Eric Stonestreet, Modern Family
Ator Coadjuvante em Minissérie ou Telefilme
Tom Berenger, Hatfields & McCoys
Atriz Coadjuvante em Série Dramática
Maggie Smith, Downton Abbey
Atriz Coadjuvante em Série Cômica
Julie Bowen, Modern Family
Atriz Coadjuvante em Minissérie ou Telefilme
Jessica Lange, American Horror Story
Roteiro – Série Dramática
Alex Gansa, Gideon Raff e Howard Gordon, Homeland – Pilot
Roteiro – Série Cômica
Louis C.K., Louie – Pregnant
Roteiro – Minissérie, Telefilme ou Especial
Danny Strong, Game Change
Direção – Série Dramática
Tim Van Patten, Boardwalk Empire – To The Lost
Direção – Série Cômica
Steven Levitan, Modern Family – Baby On Board
Direção – Minissérie, Telefilme ou Especial
Jay Roach, Game Change

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A cerimônia do Emmy - Previsões


Domingo, dia 23 de setembro, será realizada a 64ª cerimônia do Primetime Emmy Awards, a mais prestigiada premiação da televisão americana. O Emmy é comumente comparado - no limite da exaustão - ao Oscar, já que sua importância para a televisão americana é proporcional ao peso do prêmio da Academia para o cinema. A relação é engraçada, pois se há quem reclame da quantidade de prêmios técnicos do Oscar, mais gente ainda se surpreende com a quantidade de categorias técnicas do Emmy. A diferença é que essas categorias mais específicas são entregues, no caso do Emmy, em uma outra cerimônia, o Creative Emmy Awards, deixando apenas as "grandes categorias" para a noite de gala. Também é curioso como o Emmy premia suas categorias com muita independência: se no Oscar se espera que o melhor filme da noite também leve estatuetas para diretor e roteiro, no mínimo, no Emmy as melhores séries de drama ou comédia podem terminar a noite sem prêmios nessas categorias - eu, particularmente, acho interessante esse pensamento fora da caixa.

O Creative Emmy Awards desse ano viu Game of Thrones fazer uma limpa e ganhar seis estatuetas em categorias como direção de arte, efeitos especiais e som, sendo o grande destaque da noite. Ao todo, as séries da HBO levaram 17 prêmios para casa. A lista completa você pode conferir aqui: http://www.spinoff.com.br/2012/09/16/lista-de-vencedores-creative-artys-emmys-2012/. (Aproveite para analisar a quantidade impressionante de prêmios técnicos).

A partir de agora, irei dar meus palpites sobre o que acredito que acontecerá domingo, nas categorias principais. Se esse tipo de previsão é sempre achismo, reforço que nada do que eu disser deve ser levado muito a sério. Mas ei, pelo menos vai ser divertido dar meus chutes.

Melhor série dramática


Boardwalk Empire
Breaking Bad
Downton Abbey
Mad Men
Homeland
Game of Thrones

Acredito, para começar, que Boardwalk Enpire esteja apenas fazendo número, por enquanto. Downtown Abbey é uma possibilidade, mas não vejo acontecendo. Game of Thrones arrasou ontem nos prêmios técnicos, mas não sei se os votantes já se sentem prontos para aclamá-la como melhor série de drama. Breaking Bad é um sucesso de crítica, em tal medida que me impressiona que a série ainda não tenha levado a estatueta na principal categoria. Pode ser que seja, enfim, o ano. Mas meu dinheiro vai ou para Mad Men, ou para Homeland. A primeira é aclamada há anos, a outra é uma estreante queridinha dos críticos. Minha aposta final vai ser a mais segura também, mas não me surpreenderei se Homeland terminar com o ouro.

Deve ganhar: Mad Men
Gostaria que ganhasse: Game of Thrones

Ator de série dramática


Steve Buscemi, Boardwalk Empire
Bryan Cranston, Breaking Bad
Michael C. Hall, Dexter
Hugh Bonneville, Downton Abbey
Damian Lewis, Homeland
Jon Hamm, Mad Men


Acredito que será um embate entre Jon Hamm, que já deveria ter ganhado um Emmy há temporadas, e Bryan Cranston, três vezes ganhador. A úncia potencial zebra é Damian Lewis. Os outros devem assistir uma divertida cerimônia. Mais uma vez, ponho meu dinheiro no favorito.

Deve ganhar: Bryan Cranston, Breaking Bad
Gostaria que ganhasse: Jon Hamm, Mad Men


Atriz de Série Dramática

Glenn Close, Damages
Michelle Dockery, Downton Abbey
Julianna Margulies, The Good Wife
Kathy Bates, Harry’s Law
Claire Danes, Homeland
Elisabeth Moss, Mad Men

A úncia coisa certa que você deve saber sobre esse domingo é: Claire Danes vai ganhar o Emmy. Próxima categoria.

Deve ganhar: Claire Danes, Homeland
Gostaria que ganhasse: Difícil resistir ao charme de Danes, mas uma parte de mim adoraria ver Elisabeth Moss ganhando.


Ator Coadjuvante em Série Dramática

Aaron Paul, Breaking Bad
Giancarlo Esposito, Breaking Bad
Brendan Coyle, Downton Abbey
Jim Carter, Downton Abbey
Peter Dinklage, Game Of Thrones
Jared Harris, Mad Men

Uma categoria difícil, Vejo qualquer um desses, com exceção dos homens de Downtown Abbey ganhando. Ainda assim, parece que o hype está com Giancarlo Esposito levando essa, embora não descartaria uma dobradinha de Peter Dinklage.

Deve ganhar: Giancarlo Esposito, Breaking Bad
Gostaria que ganhasse: Peter Dinklage, Game Of Thrones


Atriz Coadjuvante em Série Dramática

Anna Gunn, Breaking Bad
Maggie Smith, Downton Abbey
Joanne Froggatt, Downton Abbey
Archie Panjabi, The Good Wife
Christine Baranski, The Good Wife
Christina Hendricks, Mad Men

É difícil ter Maggie Smith em uma categoria e não votar nela. Acredito que ela vá ganhar sem muitos problemas, mas meu coração está com Christina Hendricks, e isso não está em discussão.

Deve ganhar: Maggie Smith, Downton Abbey
Gostaria que ganhasse: Christina Hendricks, Mad Men


Melhor Série Cômica

The Big Bang Theory
Curb Your Enthusiasm
Girls
Modern Family
30 Rock
Veep

Sendo bastante honesto, com exceção de The Big Bang Theory e Girls, não sou fã de nenhuma das outras séries dessa seleção. Acredito que 30 Rock já tenha cansado, acho Modern Family ligeiramente superestimada, embora divertida, e nunca assisti Veep ou Curb Your Enthsiasm. Adoraria ver Girls ganhando aqui, mas acho que Modern Family leva mais uma vez...

Deve ganhar: Modern Family
Gostaria que ganhasse: Girls

Ator de Série Cômica

Jim Parsons, The Big Bang Theory
Larry David, Curb Your Enthusiasm
Don Cheadle, House Of Lies
Louis C.K., Louie
Alec Baldwin, 30 Rock
Jon Cryer, Two And A Half Men

Parece que chegou a vez de Loius C.K., mas não me surpreenderia em ver Jim Parsons ganhar pelo terceiro ano seguido (nem acharia ruim, honestamente). Acho que é basicamente isso nessa categoria.

Deve ganhar: Louis C.K., Louie
Gostaria que ganhasse: Jim Parsons, The Big Bang Theory

Atriz de Série Cômica

Lena Dunham, Girls
Melissa McCarthy, Mike & Molly
Zooey Deschanel, New Girl
Edie Falco, Nurse Jackie
Amy Poehler, Parks And Recreation
Tina Fey, 30 Rock
Julia Louis-Dreyfus, Veep

Uma categoria inchada e particularmente difícil para mim, já que não assisto quase nenhuma das séries. Sei que Julia Louis-Dreyfus é favorita, mas considerando a situação, vou me arriscar a um palpite ousado (ou nem tanto).

Deve ganhar: Zooey Deschanel, New Girl
Gostaria que ganhasse: Lena Dunham, Girls

Ator Coadjuvante em Série Cômica

Ed O’Neill, Modern Family
Jesse Tyler Ferguson, Modern Family
Ty Burrell, Modern Family
Eric Stonestreet, Modern Family
Max Greenfield, New Girl
Bill Hader, Saturday Night Live

Eles poderiam simplesmente renomear para "Melhor ator de Modern Family". Enfim, Ed O'Neill é o nome de maior peso e tem um histórico em comédia. Ponham suas fichas nele.

Deve ganhar: Ed O'Neill, Modern Family
Gostaria que ganhasse: Ed O'Neill, Modern Family

Atriz Coadjuvante em Série Cômica

Mayim Bialik, The Big Bang Theory
Kathryn Joosten, Desperate Housewives
Julie Bowen, Modern Family
Sofia Vergara, Modern Family
Merritt Wever, Nurse Jackie
Kristen Wiig, Saturday Night Live

Uma categoria um pouco complicada, mas acredito que mais uma vez Modern Family vai prevalecer. Julie Bowen me parece em melhor posição para levar o Emmy.

Deve ganhar: Julie Bowen, Modern Family
Gostaria que ganhasse: Julie Bowen, Modern Family, provavelmente a única vitória da série que realmente seria ok pra mim.

Para quem quiser assistir o Emmy domingo, a Warner começa a transmissão a partir de 21 horas. Na segunda deverei comentar os resultados - e meu desempenho como guru, claro.



quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Vox Populi ou Quando Jodie Foster e eu defendemos Kristen Stewart

Eu estou plenamente consciente de que esse meu esporádico e reticente blog é pra falar de qualquer coisa sobre cinema e televisão, exceto minhas opiniões pessoais a respeito das fofocas de Hollywood. Essa nunca foi a proposta e nunca será. Entretanto, às vezes precisamos rever algumas opiniões diante de casos especiais, principalmente se o caso específico se revela tão digno de nota.

Daí que o casal favorito do público teen e um dos mais famosos de Hollywood se separou. A essa altura, todo mundo sabe dos detalhes. Kristen Stewart traiu Robert Pattinson com o diretor de seu último filme, Branca de Neve e o Caçador, Rupert Sanders, um homem casado e pai de dois filhos. O caso é fato consumado, os paparazzi caíram em cima e Stewart pediu desculpas publicamente ao namorado. A invasão na vida do casal já estava feita, mas é rotina da indústria, então não chocou ninguém. Poderia ter parado aí, mas não. Semanas se passaram e cada capítulo da separação é coberto com riqueza de detalhes. Os tabloides, alimentados enfim de sua sede por sexo (quando na ausência da violência para explorar), estampam a atriz em suas capas, as revistas falam, o público consome. E nós demonizamos ela. Segregamos ela. Julgamos ela.

Claro, traição é algo ruim. Claro, Pattinson deve estar passando por um dos piores momentos de sua vida. Mas o que disso tudo é da nossa conta? Nada, é claro. Que a imprensa se aproveite do momento não é algo que surpreenda. Estamos acostumados e essa é uma discussão na qual não quero entrar. O que é extremamente irritante é a posição popular de repúdio a Kristen Stewart assumida nos últimos dias. O que era uma questão entre dois casais tornou-se uma caça às bruxas pública, e toda culpa/vergonha/escândalo caiu sobre os ombros de Stewart. Ninguém apareceu para oferecer qualquer palavra de conforto.

Então eu me deparo com esse artigo - http://www.thedailybeast.com/articles/2012/08/15/jodie-foster-blasts-kristen-stewart-robert-pattinson-break-up-spectacle.html - assinado pela talentosíssima Jodie Foster e me recordo porque ela é uma de minhas atrizes - e pessoas - favoritas e que ainda existe esperança na humanidade. Foster faz uma reflexão de sua própria trajetória ao pensar no "escândalo Stewart" e conclui que esse é um mundo cruel para atores, que são as Marias Madalenas favoritas da sociedade. E como somos cruéis em apedrejar! Lançamos nossas pedras com vontade, mão cheia e determinação nos olhos, lançamos nossas expectativas irracionais, nossas hipocrisias e nossas vaidades. Ninguém sabe o que se passa na vida de Stewart e Pattinson, ninguém sabe o que eles pensam e desejam e ninguém, portanto, possui o direito de julgar nada. Mas julgamos, ah, como julgamos. É para isso que as celebridades existem, afinal.

E o mundo pode ser bem cruel com Kristen Stewart. Ela é uma mulher jovem e bonita. Ela, como mulher, ainda paga o preço de ter mordido a maçã. Não vejo muita atenção das revistas de fofoca em Rupert Sanders, e não, isso não acontece por ele ser menos famoso. Fosse o contrário e Pattinson tivesse traído, você saberia tudo a este ponto a respeito da "outra". Mas você sabe apenas o essencial sobre Sanders, e sabe também que ele é um marido levado à traição muito arrependido, e queira Deus que tudo termine bem para ele e a esposa. Seguimos disfarçando o machismo desses pensamentos com outros que fazem nos sentirmos melhor com nós mesmos: que Stewart deveria ser um exemplo, apesar de seus 22 anos, que ela se colocou em uma posição inadmissível e que deveria se envergonhar - apesar de seus 22 anos. O povo, afinal, também têm suas sedes a satisfazer.

Não quero dizer que Sanders deveria estar sendo massacrado também, ou que a dor de Pattinson não seja importante, mas simplesmente que vale a pena se perguntar se Stewart já não atingiu sua cota de chicotadas e se ela sequer deveria ter ganhado a primeira. Os erros e acertos de uma pessoa não são, afinal, algo que diz respeito a ela apenas e a quem ela se importar em dividi-los? Todas essas pessoas já não tiveram o bastante? Parece que se o mundo é cruel para os atores, é mais cruel ainda para uma atriz jovem e bonita. E a voz do povo nem sempre é a voz de Deus.

sábado, 14 de julho de 2012

Análise: Na Estrada

Existem diretores que acabam se especializando em determinados tipos de filme. No caso de Walter Salles, suas experiências anteriores com Central do Brasil e Diários de Motocicleta o qualificam para reclamar o posto de melhor diretor de road movies de nosso tempo. Sua terceira investida no gênero é Na Estrada, adaptação do romance semi-biográfico de Jack Kerouac, considerado um dos maiores clássicos contemporâneos da língua inglesa. Não tendo lido o livro, algo que aliás gostaria de já ter feito há muito, fui às cegas ao cinema sem qualquer expectativa a respeito do conteúdo, mas com muitas em relação ao prestígio de Salles. Saí sem ter a sensação de que o filme se equiparava aos dois filmes de estrada já mencionados do diretor, mais redondinhos em sua finalização, mas ainda assim com a de que vi uma obra de notável qualidade, com problemas estruturais, é verdade, mas com características bastante redentoras que falam mais alto.

O filme narra a história de Sal Paradise (Sam Riley), pseudônimo para o próprio Kerouac, um escritor com sérios problemas de bloqueio criativo que leva uma vida intensa e boêmia com outros jovens intelectuais que formam as origens da Geração Beat, que conquistaria o panorama literário americano nos anos seguintes. Por meio de seu amigo Carlo Max (Tom Sturridge), pseudônimo de Allen Ginsberg, Sal conhece Dean Moriarty (Garrett Hedlund), inspirado no grande amigo de Kerouac, Neal Cassady. Tanto Sal quanto Carlo fascinam-se pela figura de Dean, um nômade de paixões intensas que gosta de viajar pelo país, aberto a experimentações e sem criar raízes. Dean personifica a Geração Beat, e pelos olhos de Sal somos arrastados com o grupo em suas viagens pelos Estados Unidos, marcadas por drogas, situações inusitadas e autodescobrimento. Conhecemos mais sobre Dean na figura das mulheres que conquista, em especial Marylou (Kristen Stewart), sua paixão de anos da qual ele se recusa a abrir mão, e Camille (Kirtsen Dunst), aquela que o convence a tentar uma vida "normal". Mas é nas ações de Dean que realmente conseguimos entender o que ao mesmo tempo fascina e confunde Sal, levando tudo a um dos desfechos mais melancólicos dos últimos tempos.

A direção de Salles é competente, como sempre. Ele consegue extrair o melhor de vários pontos do roteiro que em outras mãos passariam batidos. Salles não tem medo de explorar abertamente o uso de drogas e a retratar de maneira crua a sexualidade de seus personagens, que constitui parte fundamental da obra. A fotografia de Éric Gautier é instrumento fundamental para criar o clima, e, juntos, Salles e Gautier conseguem fazer algo do outro mundo em cenas como as experiências com drogas dos personagens, deixando seu telespectador um pouco entorpecido também. O roteiro de Jose Rivera é bom, embora bastante longo. Talvez a sensação seja diferente para quem leu o material original, mas às vezes o excesso de fidelidade com o livro cria situações que acrescentam pouco ao desenvolvimento dos personagens, como o relacionamento de Sal com Terry (Alice Braga). Afinal, Dean é o grande foco do filme e da vida do próprio Sal, como ele mesmo admite, sempre se posicionando à sombra e tendo uma inegável sensação de vazio quando está longe do amigo. Porém, os momentos de destaque do texto e a direção segura de Salles vem em resgate e, embora não poupem o longa de parecer estar se estendendo um pouco além da conta, nunca o deixam ficar pesado em excesso.

O grande destaque nas atuações é Hedlund, que consegue passar a intensidade desmedida de seu Dean e construir um personagem quase trágico e apaixonante, apesar de todas as suas falhas evidentes. Para quem temeu uma atuação irregular de Kristen Stewart, atriz que sempre divide opiniões, ela segura as pontas da personagem, ainda que passe longe de se destacar. Porém, há algo em sua Marylou que soa bastante natural e faz Stewart parecer a escolha certa para o papel, apesar de tudo. Há excelentes participações especiais de Viggo Mortensen, Amy Adams, Steve Buscemi, Terrence Howard e Elisabeth Moss ao longo do filme, que enriquecem o filme e aliviam a tensão sempre focada em Sal e Dean.

Talvez Na Estrada não seja exatamente um filme fácil para todos, devido ao conteúdo extremamente polêmico para sua época do livro inspirador e que ainda hoje soa muito forte para alguns públicos, o que, somado a estrutura e duração do longa o torne repelente para certas pessoas. Ainda assim, vale a pena pegar mais essa estrada que Salles no convida. Não é um filme tão fácil de gostar quanto Central do Brasil ou Diários de Motocicleta - a comparação é um tanto inevitável no caso -, e talvez não esteja mesmo no mesmo patamar, mas ainda vale o ingresso de quem gosta de cinema bem-feito e de mente aberta, de quem se interessa na Geração Beat, ainda que não seja nem de perto a análise detalhada do movimento que alguns gostariam, ou de quem simplesmente gosta de botar o pé na estrada de vez em quando e tem que, vez por outra, superar seus próprios bloqueios criativos.

Nota: 4,0 de 5,0.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

De cinema, televisão e Hollywood



Em algum ponto em abril, enquanto fazia uma de minhas já tradicionais visitas aos meus costumeiros sites sobre cinema, me deparei com esse artigo de James Wolcott para a revista Vanity Fair, datado de antes do Oscar deste ano: http://www.vanityfair.com/hollywood/2012/05/wolcott-television-better-than-movies (em inglês, mas para quem puder, vale a pena ler). Em resumo, Wolcott proclama a morte do cinema tradicional americano, em comparação, pelo menos, com a televisão americana e seus produtos. Uma posição extrema, sem dúvidas. Mas será que válida? O cinema estaria mesmo enfrentando uma crise de proporções tão grandes que seus fãs deveriam simplesmente fazer uma migração para a televisão - e "migrar para a televisão" são palavras bastante estranhas para 2012, se você pensar bem. Wolcott exagera um pouco no tom quase apocalíptico, é preciso reconhecer, mas, de maneira geral, ele está certo em todo o resto. Sim, o cinema é imortal e pessoas de visão e talento existem em todos os lugares do mundo, contudo está cada vez mais claro que o cinema vem perdendo e muito em qualidade em função do esvaziamento de ideias ou mesmo de conteúdo para bons roteiros e uma perda quase generalizada de coragem.

Vamos pelo começo. Quando alguém passa a se dedicar a falar de cinema moderno, é basicamente impossível não tocar no assunto Hollywood. Ainda que a pessoa em questão queira negar todos os valores do cinema tradicional hollywoodiano, ela precisa primeiro expor sua posição e seus fundamentos. O cinema americano lançou várias bases e tendências ao longo do século XX que viriam a se tornar padrões para a sétima arte, de forma que é impossível não prestar honras ao cinema clássico americano e reconhecer a importância e impacto de seu conglomerado empresarial, Hollywood. Desse modo, é igualmente impossível não admitir que qualquer mudança nos padrões de Hollywood afetam, sim, o cenário do cinema mundial. Negar isso é presunção e não querer ver o óbvio. O que torna o artigo de Wolcott mais interessante ainda, porém, é sua comparação do cinema com as séries americanas, o inegável segundo produto cultural mais tradicional dos Estados Unidos. E é aqui que a coisa pega.

Assim como o cinema americano influencia pessoas por todo o continente e além-mar, sua televisão também. Com a explosão da TV à cabo, as séries se tornaram muito populares e invadiram lares de todo o mundo - sem mencionar o apoio mais recente da internet, que atua como faca de dois gumes, tanto difundindo quanto facilitando a distribuição de downloads não autorizados. Em termos de Brasil, seu acesso e apreciação ainda é limitado a uma classe média, enquanto o cinema segue sendo mais universal, mas os efeitos da invasão das séries se fez presente até na TV brasileira, que na última década investiu mais tempo de sua programação em suas próprias aventuras no gênero, ainda que de forma particular. Tudo isso torna mais fácil para que os privilegiados com acesso daqui possam reconhecer que o padrão da televisão americana está mais alto do que nunca, algo que eles próprios já perceberam há muito tempo.

Séries como Mad Men, Game of Thrones e Boardwalk Empire se destacam como superproduções do presente, com roteiros primorosos e valentes. Sem mencionar séries já encerradas, como Lost (ainda hoje, minha série favorita e inabalável em seu primeiro lugar) e The Sopranos. Na medida oposta, o cinema fica cada vez mais careta e conservador. Isso falando apenas de drama, pois na comédia a TV já superou o cinema há muito, desde que Friends e Seinfield ganharam corações ao redor do mundo. A tradição se mantém viva hoje, com sucessos de público e de crítica como The Big Bang Theory, How I Met Your Mother, Community e Parks and Recreation. Todas essas séries têm mostrado iniciativas mais inovadoras e propostas mais promissoras do que a maior parte do que é feito no cinema atual. Por uma série de razões, produtores, diretores e roteiristas constantemente investem em fórmulas mais tradicionais, deixando os riscos de lado para atrair audiências cada vez mais amplas, o que não deixa de ser um reflexo de como as cifras cada vez mais altas vêm interferindo e pedindo resultados mais práticos.

Sem dúvida existe uma grande leva de diretores talentosos fugindo dos padrões com frequência e entregando trabalhos constantemente originais: Martin Scorsese, Woody Allen, Terrence Malick, Steven Spielberg, David Fincher, Darren Aronofsky, Christopher Nolan, só para nomear alguns. É certo também que existe vida fora de Hollywood e vida em abundância, não só nos cinemas de outros países, mas igualmente no cenário independente americano, que a cada ano vem emplacando filmes de sucesso. Contudo, é uma pena ver o potencial de uma grande máquina de cinema ser desperdiçado visando escolhas que têm muito pouco a ver com arte. Enquanto a televisão vêm preencher esse vazio, fica a esperança de que a sétima arte americana possa atravessar essa crise generalizada de criatividade e possamos dispor de variadas formas de entretenimento de qualidade.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Análise: Sombras da Noite

O modo mais justo de começar essa resenha de Sombras da Noite é confessar que acho Tim Burton um diretor superestimado. Certo, ele fez alguns longas realmente interessantes na década de 1990 e Peixe Grande é inegavelmente um filme bonito e simpático, mas o status privilegiado de Burton junto ao universo do cinema como um todo sempre me pareceu fora de proporção. Apesar disso, sempre insisti em acompanhar seus filmes, pois sempre percebi algumas qualidades que não deveriam ser menosprezadas, como seu cuidado visual impecável e o clima que suas obras invariavelmente apresentam, com sua inclinação ao surreal e ao burlesco. Porém isso nem sempre é o bastante para salvar uma produção, o que é o caso evidente de Sombras da Noite, filme baseado em uma famosa soap opera americana da década de 1960 criada por Dan Curtis, mas que parece ter sido destinada a Burton. A afinidade do diretor com a estética da história poderia ter rendido um resultado memorável, mas, infelizmente, isso não chega nem perto de acontecer, por uma série de erros que acabam ficando escancarados.

A história começa no final do século XVIII, quando a família inglesa Collins se muda para o Maine e funda a cidade de Collinsport, fazendo uma fortuna com a pesca. Porém, o filho dos Collins, Barnabas (Johnny Depp), um tipo conquistador, seduz Angelique Buchard (Eva Green) embora não esteja apaixonado por ela e desconhecendo o fato de que ela é uma feiticeira. Quando Barnabas se apaixona por Josette Du Pres (Bella Heathcote), Angelique se vinga conduzindo a moça ao suicídio. Desesperado, Barnabas tenta se matar também, mas a feiticeira faz com que ele se transforme em um vampiro antes de ter sucesso, condenando-o a passar uma vida eterna amaldiçoada. Incitando a população de Collinsport contra Barnabas, Angelique se torna a nova governante do lugar, enquanto o vampiro é enterrado em um local remoto.

Duzentos anos se passam, até que Barnabas é libertado acidentalmente de sua sepultura em 1972. Entrando em choque com o novo mundo, ele retorna até a casa de sua família e se reúne com seus últimos descendentes: Elizabeth (Michelle Pfeiffer), a matriarca da família; sua filha rebelde de 15 anos, Carolyn (Chlöe Grace Moretz); o irmão de Elizabeth, o boa-vida Roger (Jonny Lee Miller); e seu filho, atormentado pela morte da mãe, David (Gulliver McGrath). Lá também moram os funcionários da casa: a psiquiatra de David, Dra. Hoffman (Helena Bonham Carter), o zelador, Willie (Jackie Earle Haley), e a nova governanta, Victoria, que Barnabas percebe ser a reencarnação de Josette. Após alguns conflitos iniciais entre a família e Barnabas, o vampiro decide ajudar seu clã a recuperar a glória de outros tempos, em especial após descobrir que Angelique ainda vive, disfarçada como uma descendente de si mesma, e foi determinante para a ruína de seus descendentes.

As características que tornaram Burton famoso estão todas presentes no filme. Estética sombria, altas doses de humor negro e um preciosismo notável com a direção de arte, que aliás deve ser a melhor entre todos os filmes do diretor. Isso, contudo, não é suficiente para segurar a fragilidade do roteiro, que contém alguns erros que atrapalham muito. Para começar, tudo é muito apressado. É natural que, pela natureza da adaptação, muita coisa presente na soap opera acabasse ficando de fora, mas a tendência do roteiro de querer abraçar o mundo sem conseguir explorar nenhum assunto realmente bem deixa o filme vago. Os fatos mais absurdos são aceitos com muita naturalidade (ainda que se considere toda a estética surrealista da obra), talvez simplesmente porque não há tempo para mais do que isso. O roteiro sufocado também faz com que basicamente nenhum personagem seja bem desenvolvido, o que contribui para um subaproveitamento de ótimos atores - Michelle Pfeiffer passa o filme inteiro sem dizer a que veio e a cada vez mais promissora Chlöe Grace Moretz fica sem ter muita coisa pra fazer -, além de criar um grande desinteresse com relação aos personagens. Afinal, fora os arcos dramáticos de Barnabas e Angelique, tramas com potencial como as de David, Victoria ou da Dra. Hoffman ficam no ar, subaproveitadas.

Perdido em sua própria trama que não se decide nunca entre o terror, o drama ou a comédia (esta última opção é a que rende as melhores tiradas do filme), Sombras da Noite fica dependente de seus ocasionais bons momentos - a piada com o McDonalds's me divertiu de verdade e é facilmente a melhor cena do filme. Esses bons momentos, entretanto, são esporádicos demais para impressionar. O filme pode até entreter um espectador ocasional, mas dificilmente sobrevive na cabeça muito tempo depois da saída do cinema. Um claro sinal de que Burton está precisando se reinventar e, sim, que sua parceria com Depp está precisando urgentemente de renovação e um pouco de ar fresco, para o bem dos dois.

Nota: 2,5 de 5,0.