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domingo, 1 de julho de 2012

Flashback: Blade Runner

Esta semana, o clássico da ficção Blade Runner: O Caçador de Androides completou trinta anos. Enquanto o filme passou longe de ser um sucesso na ocasião de lançamento, tornando-se algo próximo de um fracasso de bilheteria, foi justamente o tempo quem fez justiça ao filme de Ridley Scott, que voltava a visitar o gênero após Alien: O Oitavo Passageiro. Enquanto Alien brincava com metáforas para sexualidade ocultas sob a atmosfera do terror, Scott e os roteiristas Hampton Fancher e David Peoples trabalharam com uma gama imensa de referências pop em Blade Runner, mergulhando-as no molho do noir para utilizar os androides da trama como reflexões sobre a condição humana. Tantas influências poderiam ter gerado um resultado esquizofrênico, mas o talento de Scott impediu isso. O que se seguiu, na verdade, foi um filme que não pode ficar de fora de qualquer lista de melhores do cinema.

A trama, ambientada numa Los Angeles decadente de 2019 (o que era um futuro bem longe em 1982), gira em torno de Rick Deckard (Harrison Ford), um caçador de replicantes (androides criados para serem mais perfeitos que os próprios humanos e trabalharem no espaço, mas que foram proibidos de visitar a Terra) aposentado, que é levado de volta à ativa quando um grupo de replicantes se rebela e desembarca no planeta. Liderados por Roy Batty (Rutger Hauer), eles querem encontrar seu criador para questionar as motivações por trás da própria existência e pedir mais tempo de vida (já que os replicantes são programados para morrer após certo tempo). Em sua caçada, Deckard encontra Rachael (Sean Young), assistente do tal criador que não desconfia que é, ela mesma, uma replicante. Quando a verdade a encontra com um choque e é confirmada por Deckard, os dois começam um relacionamento intenso, mas fadado a um fim abrupto. Enquanto isso, as ruas de uma sombria Los Angeles viram cenário para uma caçada sangrenta, cujo desfecho é ao mesmo tempo belo, trágico e inesperado.

O filme ganhou uma variedade de versões ao longo dos anos, em grande parte pela insatisfação de Scott com o final "feliz" veiculado nos cinemas em 1982, que suavizava as insinuações de que o próprio Deckard era um replicante e garantia um futuro para ele e Rachael. Na versão do diretor, lançada anos depois, o desfecho é mais sombrio e incerto. Qualquer que seja o caso, a questão toca no tema central de Blade Runner: a humanidade. Os replicantes, embora "vilões", parecem possuir sentimentos mais identificáveis do que os humanos, que por sua vez são frios e práticos. É só lembrar da cena próxima ao final onde Gaff (Edward James Olmos), referindo-se a Rachael, diz: "It's too bad she won't live! But then again, who does?" (É uma pena que ela não vá viver! Mas afinal, quem vive?). É impossível deixar de notar a metáfora religiosa: os androides estão atrás de seu Criador para tentar compreender suas próprias existência e mortalidade. Os replicantes são nada mais que um simbolismo para nós mesmos, sempre em busca de respostas e tentando reverter a brevidade da vida, mas terminando com mais dúvidas do que antes na cabeça. Invertendo as concepções de humano e androide, Blade Runner traz o questionamento dos limites da humanidade e, por fim, o que podemos entender desse conceito e qual é, afinal, sua importância numa sociedade cada vez mais tecnológica e robótica.

Em linguagem de cinema, o filme é um espetáculo para os olhos. Uma ficção noir contando com direção de arte e fotografia supremas e a maravilhosa e icônica trilha sonora de Vangelis ao fundo. O longa talvez seja a atuação mais firme de Harrison Ford, um lenda do cinema de ação, que dá vida e depressão ao amargurado Deckard. Há também a presença de uma jovem Daryl Hannah como a sensual replicante Pris, mas é sem dúvidas Rutger Hauer quem rouba a cena. Seu solilóquio final, que foi uma mistura de improvisação de Hauer com elementos do roteiro, tornou-se extremamente famoso e atiçou a imaginação dos fãs de sci-fi ao redor do mundo. Para mim, além de tudo isso, as linhas finais do personagem Batty formam um dos momentos mais bonitos da história do cinema, resumindo toda a moral do filme e arrepiando pela grandeza e simplicidade. É justamente o vídeo dessa cena que escolho para encerrar essa análise. Só resta afirmar que são filmes como Blade Runner que renovam a cada dia meu amor pelo cinema.

Nota: 5,0 de 5,0.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Análise: Prometheus

Há praticamente dez anos atrás, multiplicavam-se comentários em sites especializados de que um quinto filme na série Alien estava em produção. Boatos de uma colaboração entre Ridley Scott e James Cameron, diretores dos dois primeiros e melhores filmes da franquia, surgiam com força, o que animou os fãs de ficção científica. O tempo passou, notícias surgiram, outros assuntos desapareceram, Cameron abandonou o navio (o trocadilho é intencional) e, enfim, dois anos atrás Scott anunciou que assumiria a direção de uma prequel para a série, estabelecendo as origens para a mitologia do universo Alien e revelando a cadeia de acontecimentos que culminaram em Alien: O Oitavo Passageiro. O resultado é Prometheus, que marca o retorno de Scott ao sci-fi trinta anos depois. O filme de fato tenta se posicionar como ponto de partida e funcionar como obra independente e, embora escorregue notavelmente em vários momentos no roteiro, apresenta-se de maneira honrosa para a reputação de Scott junto ao gênero.

Situado em 2093 (29 anos antes de O Oitavo Passageiro, para os mais freaks), o filme segue uma expedição a bordo da nave Prometheus com destino a lua LV-223, integrante de uma galáxia distante, mas similar à Via Láctea. O grupo é liderado pelo casal de arqueologistas Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green), que logo entra em atrito com Vickers (Charlize Theron), funcionária da Weyland Corporation - uma velha conhecida dos fãs de Alien -, que está financiando a viagem e enviou-a para monitorá-la. Na tripulação também está David (Michael Fassbender), um androide de inteligência e habilidades espantosas. Assim que a expedição pousa em seu destino, eles se depararam com uma estrutura que não parece ter sido construída pela natureza e que abriga os corpos de vários alienígenas humanoides que Shaw e Holloway acreditam serem nossos "construtores", razão pela qual os apelidam de Engenheiros. Porém, a medida que o grupo adentra o local, ele começa a se deparar com um horror enterrado naquelas câmaras, que gradualmente começa a matar ou enlouquecer os membros da tripulação. Quando a volta para casa fica comprometida, eles percebem tarde demais que podem ter liberado uma ameaça letal.

Vou começar minha análise de modo inverso ao que costumo fazer, destacando os pontos negativos primeiro. Na verdade, o grande problema nesse sentido, para mim, é o roteiro. Não que ele seja ruim ou peque em ritmo, mas inegavelmente deixa muito a desejar em termos de finalização. Muita coisa é simplesmente deixada no ar e fica a sensação de que todo o tempo estava se pensando em deixar material sobrando para uma continuação. Não que eu ache que absolutamente tudo precise de respostas, mas há um mínimo de perguntas que precisam ser satisfeitas e com o qual Prometheus parece não se importar. Outro ponto que acabou ficando a dever no roteiro - que tem como um dos autores Damon Lindelof, roteirista da série Lost - foi o desenvolvimento de alguns personagens. Enquanto David, o androide, e em certa medida Shaw são construídos razoavelmente, muitos outros personagens importantes acabam se mostrando pouco. É o caso, por exemplo, de Vickers, que faz a ótima Charlize Theron se tornar quase uma participação especial.

De resto, não há dúvidas: Prometheus é uma ficção científica de primeira linha. A homenagem que presta a Alien, quase emulando sua estrutura e sugando seus elementos de cinema de terror, é nítida e bem-vinda. Scott mostra que não enferrujou com o tempo longe do gênero e entrega um trabalho belíssimo. A cena inicial é espetacularmente bonita e a sequência do parto, sem dizer mais para não estragar qualquer coisa, é sem dúvidas a melhor do filme, levando os níveis de tensão a um nível inacreditável. Assim como Alien, a moral final é um alerta para o deslumbramento humano diante do desconhecido e de suas forças que podem sair de nosso controle, mas Prometheus, mais épico e com mais poesia, usa uma salada cultural de mitos gregos, lendas de povos da Antiguidade e referências a Lovecraft para passar sua mensagem. Não é melhor que seu homenageado e sucessor cronológico, que ganha com toda sua simplicidade e crueza, mas é uma adição indolor ao cânone. O elenco funciona, com destaque para Fassbender, mais uma vez roubando a cena em um filme e nos brindando com o melhor androide da série, sempre frio mas começando a desenvolver emoções como inveja e maravilhamento. Uma prequel digna, no momento em que Hollywood parece estar banalizando essa tendência.

Nota: 4,0 de 5,0.

Mas não acabou aqui!
Primeiro, um aviso. Hoje, justamente, 25 de junho de 2012, Blade Runner, de Scott, está completando 30 anos. Fica aqui meu parabéns e a promessa de uma resenha desse clássico dos clássicos para essa semana.
Agora, fugindo um pouco à minha determinação de não soltar spoilers de filmes que ainda estão no cinema ou são muito recentes, um último parágrafo de divagações com revelações do enredo. Daqui pra frente, só leia se já viu o filme. Ou simplesmente se não é do tipo que se incomoda com ter as surpresas estragadas, rs.

Muita gente ficou confusa com o final do filme - e a aparição do Alien - não se conectarem muito bem com o começo de O Oitavo Passageiro. Existe uma razão simples. As duas coisas realmente não se conectam. Aquela não é a lua em que a Nostromo pousa 29 anos depois. Poderia parecer, à primeira vista, que o fim de um levaria diretamente para o começo de outro, mas não. Algo que só reforça a chance de uma continuação, essa sim (talvez) fazendo a conexão final. O gancho já foi estabelecido, com Shaw partindo para encontrar os Engenheiros. De resto, fica a dúvida: o Alien que aparece no final é o primeiro Alien de todos, o elo perdido criado quase que experimentalmente por David quando ele infectou Holloway, e este por sua vez Shaw? Se sim, como os Aliens se multiplicaram por aí e chegaram em outra lua? Pontas soltas que, olha lá, quase obrigam uma continuação para remendar a história. Quando algumas perguntas são respondidas, outras surgem... é a maravilha do cinema.

sexta-feira, 30 de março de 2012

O que Prometheus, de Ridley Scott, nos reserva

Já se vão 30 anos desde que Ridley Scott dirigiu Blade Runner. O filme viria a se tornar um ícone da ficção científica nas três décadas posteriores, mas Scott nunca mais voltaria a fazer algum trabalho no gênero. Na verdade, Scott se tornou uma lenda do sci-fi mesmo tendo dirigido apenas dois filmes nesse estilo, o outro sendo Alien. O fato engraçado é que isso não indica uma sobrestimação do diretor. Esses dois filmes, junto com 2001, Star Wars e uns poucos outros formam o panteão da ficção científica. Ainda que o trabalho de Scott tenha se mostrado bastante irregular nos últimos anos, alternando alguns filmes muito bons com outros pura e simplesmente dispensáveis ou precipitados, sua marca para o cinema já foi garantida. Isso faz com que o tão anunciado retorno de Scott ao gênero que o consagrou, programado para o meio deste ano, seja ainda mais ansiado. Prometheus já ganhou pôster, data de estreia (8 de junho), teve elenco e sinopse divulgados, mas ainda está mantendo escondida a maior parte de suas cartas, o que não só é natural, como estimula bastante discussões ao redor de si.

Os primeiros rumores anunciavam que Prometheus seria uma prequel a Alien, mas essas especulações gradualmente foram desmentidas. Por fim, descobriu-se que, segundo o próprio Scott, o longa será apenas um antecessor indireto a Alien, situando as duas obras num mesmo universo, mas sem uma conexão mais avançada. Alguns elementos em comum são óbvios: Michael Fassbender interpretará um androide, uma das marcas da série de ficção e terror - e mote central de Blade Runner, é claro -, e a trama mostra o homem começando a ganhar distâncias mais além no espaço. No centro do enredo está a descoberta de um mapa  estelar entre achados arqueológicos de uma variedade de sociedades da Antiguidade. Uma equipe embarca na nave Prometheus para seguir as indicações do mapa, buscando respostas para mistérios que podem estar por trás das origens da própria humanidade. Porém, eles acabam se deparando com algo maior do que imaginavam, e mais perigoso. No elenco estão ainda Noomi Rapace, Charlize Theron e Guy Pearce.

Impossível dizer o quanto estou empolgado para esse filme. Como fã de Alien, Blade Runner e Ridley Scott, esse novo trabalho do diretor é aguardado com expectativa. Ainda levo fé na capacidade de Scott de entregar um bom filme, apesar de algumas decepções recentes. No mais, o trailer é fantástico, e dá indicações de que os efeitos e a fotografia serão dignos de nota. É com o trailer, justamente, que encerro este post. Assistam e tirem sua próprias conclusões. Enquanto isso, esperamos junho chegar...

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Ridley Scott volta com Prometheus

Ridley Scott dirigiu dois dos mais influentes filmes de ficção científica de todos os tempos, Alien e Blade Runner. Juntos, esses filmes mudaram todos os parâmetros estéticos do gênero e abriram um leque de novas possibilidades. Alien permanece o filme mais assustador que já vi na minha vida inteira. Sim, assustador, já que Scott foi o responsável pela primeira mistura de terror e ficção científica no cinema. Com uma premissa apavorante e uma  tagline genial (talvez a mais genial já feita) - No espaço, ninguém pode ouvir você gritar -, Alien mudou os conceitos do cinema de ficção e deu uma origem a uma série, composta por um dos melhores filmes de James Cameron, muito mais voltado à ação do que ao terror, e dois filmes medíocres dirigidos por David Fincher (em sua estreia e pior momento de sua carreira) e Jean-Pierre Jeunet. O fato é que trinta anos após dirigir Blade Runner, Ridley Scott volta a dirigir um filme de ficção científica com Prometheus.

Durante muito tempo se especulou que o longa seria uma prequel direta para o primeiro filme da série Alien. Porém, Scott já desmentiu tais teorias e afirmou que sim, o filme se passa no mesmo universo e pouquíssimo tempo antes do lendário primeiro filme, mas Prometheus terá uma história própria, funcionando mais como uma espécie de universo expandido. Sendo assim, o teor do novo filme do diretor britânico permanece ainda em grande parte uma incógnita, coisa que o trailer, divulgado em dezembro, não faz questão de melhorar. Porém, os efeitos especiais parecem estar extremamente caprichados e fiquei com a sensação de que, enfim, toda a atmosfera sombria do Alien de 1979 está de volta.

Você pode conferir o trailer aqui: