sábado, 14 de julho de 2012

Análise: Na Estrada

Existem diretores que acabam se especializando em determinados tipos de filme. No caso de Walter Salles, suas experiências anteriores com Central do Brasil e Diários de Motocicleta o qualificam para reclamar o posto de melhor diretor de road movies de nosso tempo. Sua terceira investida no gênero é Na Estrada, adaptação do romance semi-biográfico de Jack Kerouac, considerado um dos maiores clássicos contemporâneos da língua inglesa. Não tendo lido o livro, algo que aliás gostaria de já ter feito há muito, fui às cegas ao cinema sem qualquer expectativa a respeito do conteúdo, mas com muitas em relação ao prestígio de Salles. Saí sem ter a sensação de que o filme se equiparava aos dois filmes de estrada já mencionados do diretor, mais redondinhos em sua finalização, mas ainda assim com a de que vi uma obra de notável qualidade, com problemas estruturais, é verdade, mas com características bastante redentoras que falam mais alto.

O filme narra a história de Sal Paradise (Sam Riley), pseudônimo para o próprio Kerouac, um escritor com sérios problemas de bloqueio criativo que leva uma vida intensa e boêmia com outros jovens intelectuais que formam as origens da Geração Beat, que conquistaria o panorama literário americano nos anos seguintes. Por meio de seu amigo Carlo Max (Tom Sturridge), pseudônimo de Allen Ginsberg, Sal conhece Dean Moriarty (Garrett Hedlund), inspirado no grande amigo de Kerouac, Neal Cassady. Tanto Sal quanto Carlo fascinam-se pela figura de Dean, um nômade de paixões intensas que gosta de viajar pelo país, aberto a experimentações e sem criar raízes. Dean personifica a Geração Beat, e pelos olhos de Sal somos arrastados com o grupo em suas viagens pelos Estados Unidos, marcadas por drogas, situações inusitadas e autodescobrimento. Conhecemos mais sobre Dean na figura das mulheres que conquista, em especial Marylou (Kristen Stewart), sua paixão de anos da qual ele se recusa a abrir mão, e Camille (Kirtsen Dunst), aquela que o convence a tentar uma vida "normal". Mas é nas ações de Dean que realmente conseguimos entender o que ao mesmo tempo fascina e confunde Sal, levando tudo a um dos desfechos mais melancólicos dos últimos tempos.

A direção de Salles é competente, como sempre. Ele consegue extrair o melhor de vários pontos do roteiro que em outras mãos passariam batidos. Salles não tem medo de explorar abertamente o uso de drogas e a retratar de maneira crua a sexualidade de seus personagens, que constitui parte fundamental da obra. A fotografia de Éric Gautier é instrumento fundamental para criar o clima, e, juntos, Salles e Gautier conseguem fazer algo do outro mundo em cenas como as experiências com drogas dos personagens, deixando seu telespectador um pouco entorpecido também. O roteiro de Jose Rivera é bom, embora bastante longo. Talvez a sensação seja diferente para quem leu o material original, mas às vezes o excesso de fidelidade com o livro cria situações que acrescentam pouco ao desenvolvimento dos personagens, como o relacionamento de Sal com Terry (Alice Braga). Afinal, Dean é o grande foco do filme e da vida do próprio Sal, como ele mesmo admite, sempre se posicionando à sombra e tendo uma inegável sensação de vazio quando está longe do amigo. Porém, os momentos de destaque do texto e a direção segura de Salles vem em resgate e, embora não poupem o longa de parecer estar se estendendo um pouco além da conta, nunca o deixam ficar pesado em excesso.

O grande destaque nas atuações é Hedlund, que consegue passar a intensidade desmedida de seu Dean e construir um personagem quase trágico e apaixonante, apesar de todas as suas falhas evidentes. Para quem temeu uma atuação irregular de Kristen Stewart, atriz que sempre divide opiniões, ela segura as pontas da personagem, ainda que passe longe de se destacar. Porém, há algo em sua Marylou que soa bastante natural e faz Stewart parecer a escolha certa para o papel, apesar de tudo. Há excelentes participações especiais de Viggo Mortensen, Amy Adams, Steve Buscemi, Terrence Howard e Elisabeth Moss ao longo do filme, que enriquecem o filme e aliviam a tensão sempre focada em Sal e Dean.

Talvez Na Estrada não seja exatamente um filme fácil para todos, devido ao conteúdo extremamente polêmico para sua época do livro inspirador e que ainda hoje soa muito forte para alguns públicos, o que, somado a estrutura e duração do longa o torne repelente para certas pessoas. Ainda assim, vale a pena pegar mais essa estrada que Salles no convida. Não é um filme tão fácil de gostar quanto Central do Brasil ou Diários de Motocicleta - a comparação é um tanto inevitável no caso -, e talvez não esteja mesmo no mesmo patamar, mas ainda vale o ingresso de quem gosta de cinema bem-feito e de mente aberta, de quem se interessa na Geração Beat, ainda que não seja nem de perto a análise detalhada do movimento que alguns gostariam, ou de quem simplesmente gosta de botar o pé na estrada de vez em quando e tem que, vez por outra, superar seus próprios bloqueios criativos.

Nota: 4,0 de 5,0.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

De cinema, televisão e Hollywood



Em algum ponto em abril, enquanto fazia uma de minhas já tradicionais visitas aos meus costumeiros sites sobre cinema, me deparei com esse artigo de James Wolcott para a revista Vanity Fair, datado de antes do Oscar deste ano: http://www.vanityfair.com/hollywood/2012/05/wolcott-television-better-than-movies (em inglês, mas para quem puder, vale a pena ler). Em resumo, Wolcott proclama a morte do cinema tradicional americano, em comparação, pelo menos, com a televisão americana e seus produtos. Uma posição extrema, sem dúvidas. Mas será que válida? O cinema estaria mesmo enfrentando uma crise de proporções tão grandes que seus fãs deveriam simplesmente fazer uma migração para a televisão - e "migrar para a televisão" são palavras bastante estranhas para 2012, se você pensar bem. Wolcott exagera um pouco no tom quase apocalíptico, é preciso reconhecer, mas, de maneira geral, ele está certo em todo o resto. Sim, o cinema é imortal e pessoas de visão e talento existem em todos os lugares do mundo, contudo está cada vez mais claro que o cinema vem perdendo e muito em qualidade em função do esvaziamento de ideias ou mesmo de conteúdo para bons roteiros e uma perda quase generalizada de coragem.

Vamos pelo começo. Quando alguém passa a se dedicar a falar de cinema moderno, é basicamente impossível não tocar no assunto Hollywood. Ainda que a pessoa em questão queira negar todos os valores do cinema tradicional hollywoodiano, ela precisa primeiro expor sua posição e seus fundamentos. O cinema americano lançou várias bases e tendências ao longo do século XX que viriam a se tornar padrões para a sétima arte, de forma que é impossível não prestar honras ao cinema clássico americano e reconhecer a importância e impacto de seu conglomerado empresarial, Hollywood. Desse modo, é igualmente impossível não admitir que qualquer mudança nos padrões de Hollywood afetam, sim, o cenário do cinema mundial. Negar isso é presunção e não querer ver o óbvio. O que torna o artigo de Wolcott mais interessante ainda, porém, é sua comparação do cinema com as séries americanas, o inegável segundo produto cultural mais tradicional dos Estados Unidos. E é aqui que a coisa pega.

Assim como o cinema americano influencia pessoas por todo o continente e além-mar, sua televisão também. Com a explosão da TV à cabo, as séries se tornaram muito populares e invadiram lares de todo o mundo - sem mencionar o apoio mais recente da internet, que atua como faca de dois gumes, tanto difundindo quanto facilitando a distribuição de downloads não autorizados. Em termos de Brasil, seu acesso e apreciação ainda é limitado a uma classe média, enquanto o cinema segue sendo mais universal, mas os efeitos da invasão das séries se fez presente até na TV brasileira, que na última década investiu mais tempo de sua programação em suas próprias aventuras no gênero, ainda que de forma particular. Tudo isso torna mais fácil para que os privilegiados com acesso daqui possam reconhecer que o padrão da televisão americana está mais alto do que nunca, algo que eles próprios já perceberam há muito tempo.

Séries como Mad Men, Game of Thrones e Boardwalk Empire se destacam como superproduções do presente, com roteiros primorosos e valentes. Sem mencionar séries já encerradas, como Lost (ainda hoje, minha série favorita e inabalável em seu primeiro lugar) e The Sopranos. Na medida oposta, o cinema fica cada vez mais careta e conservador. Isso falando apenas de drama, pois na comédia a TV já superou o cinema há muito, desde que Friends e Seinfield ganharam corações ao redor do mundo. A tradição se mantém viva hoje, com sucessos de público e de crítica como The Big Bang Theory, How I Met Your Mother, Community e Parks and Recreation. Todas essas séries têm mostrado iniciativas mais inovadoras e propostas mais promissoras do que a maior parte do que é feito no cinema atual. Por uma série de razões, produtores, diretores e roteiristas constantemente investem em fórmulas mais tradicionais, deixando os riscos de lado para atrair audiências cada vez mais amplas, o que não deixa de ser um reflexo de como as cifras cada vez mais altas vêm interferindo e pedindo resultados mais práticos.

Sem dúvida existe uma grande leva de diretores talentosos fugindo dos padrões com frequência e entregando trabalhos constantemente originais: Martin Scorsese, Woody Allen, Terrence Malick, Steven Spielberg, David Fincher, Darren Aronofsky, Christopher Nolan, só para nomear alguns. É certo também que existe vida fora de Hollywood e vida em abundância, não só nos cinemas de outros países, mas igualmente no cenário independente americano, que a cada ano vem emplacando filmes de sucesso. Contudo, é uma pena ver o potencial de uma grande máquina de cinema ser desperdiçado visando escolhas que têm muito pouco a ver com arte. Enquanto a televisão vêm preencher esse vazio, fica a esperança de que a sétima arte americana possa atravessar essa crise generalizada de criatividade e possamos dispor de variadas formas de entretenimento de qualidade.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Análise: Sombras da Noite

O modo mais justo de começar essa resenha de Sombras da Noite é confessar que acho Tim Burton um diretor superestimado. Certo, ele fez alguns longas realmente interessantes na década de 1990 e Peixe Grande é inegavelmente um filme bonito e simpático, mas o status privilegiado de Burton junto ao universo do cinema como um todo sempre me pareceu fora de proporção. Apesar disso, sempre insisti em acompanhar seus filmes, pois sempre percebi algumas qualidades que não deveriam ser menosprezadas, como seu cuidado visual impecável e o clima que suas obras invariavelmente apresentam, com sua inclinação ao surreal e ao burlesco. Porém isso nem sempre é o bastante para salvar uma produção, o que é o caso evidente de Sombras da Noite, filme baseado em uma famosa soap opera americana da década de 1960 criada por Dan Curtis, mas que parece ter sido destinada a Burton. A afinidade do diretor com a estética da história poderia ter rendido um resultado memorável, mas, infelizmente, isso não chega nem perto de acontecer, por uma série de erros que acabam ficando escancarados.

A história começa no final do século XVIII, quando a família inglesa Collins se muda para o Maine e funda a cidade de Collinsport, fazendo uma fortuna com a pesca. Porém, o filho dos Collins, Barnabas (Johnny Depp), um tipo conquistador, seduz Angelique Buchard (Eva Green) embora não esteja apaixonado por ela e desconhecendo o fato de que ela é uma feiticeira. Quando Barnabas se apaixona por Josette Du Pres (Bella Heathcote), Angelique se vinga conduzindo a moça ao suicídio. Desesperado, Barnabas tenta se matar também, mas a feiticeira faz com que ele se transforme em um vampiro antes de ter sucesso, condenando-o a passar uma vida eterna amaldiçoada. Incitando a população de Collinsport contra Barnabas, Angelique se torna a nova governante do lugar, enquanto o vampiro é enterrado em um local remoto.

Duzentos anos se passam, até que Barnabas é libertado acidentalmente de sua sepultura em 1972. Entrando em choque com o novo mundo, ele retorna até a casa de sua família e se reúne com seus últimos descendentes: Elizabeth (Michelle Pfeiffer), a matriarca da família; sua filha rebelde de 15 anos, Carolyn (Chlöe Grace Moretz); o irmão de Elizabeth, o boa-vida Roger (Jonny Lee Miller); e seu filho, atormentado pela morte da mãe, David (Gulliver McGrath). Lá também moram os funcionários da casa: a psiquiatra de David, Dra. Hoffman (Helena Bonham Carter), o zelador, Willie (Jackie Earle Haley), e a nova governanta, Victoria, que Barnabas percebe ser a reencarnação de Josette. Após alguns conflitos iniciais entre a família e Barnabas, o vampiro decide ajudar seu clã a recuperar a glória de outros tempos, em especial após descobrir que Angelique ainda vive, disfarçada como uma descendente de si mesma, e foi determinante para a ruína de seus descendentes.

As características que tornaram Burton famoso estão todas presentes no filme. Estética sombria, altas doses de humor negro e um preciosismo notável com a direção de arte, que aliás deve ser a melhor entre todos os filmes do diretor. Isso, contudo, não é suficiente para segurar a fragilidade do roteiro, que contém alguns erros que atrapalham muito. Para começar, tudo é muito apressado. É natural que, pela natureza da adaptação, muita coisa presente na soap opera acabasse ficando de fora, mas a tendência do roteiro de querer abraçar o mundo sem conseguir explorar nenhum assunto realmente bem deixa o filme vago. Os fatos mais absurdos são aceitos com muita naturalidade (ainda que se considere toda a estética surrealista da obra), talvez simplesmente porque não há tempo para mais do que isso. O roteiro sufocado também faz com que basicamente nenhum personagem seja bem desenvolvido, o que contribui para um subaproveitamento de ótimos atores - Michelle Pfeiffer passa o filme inteiro sem dizer a que veio e a cada vez mais promissora Chlöe Grace Moretz fica sem ter muita coisa pra fazer -, além de criar um grande desinteresse com relação aos personagens. Afinal, fora os arcos dramáticos de Barnabas e Angelique, tramas com potencial como as de David, Victoria ou da Dra. Hoffman ficam no ar, subaproveitadas.

Perdido em sua própria trama que não se decide nunca entre o terror, o drama ou a comédia (esta última opção é a que rende as melhores tiradas do filme), Sombras da Noite fica dependente de seus ocasionais bons momentos - a piada com o McDonalds's me divertiu de verdade e é facilmente a melhor cena do filme. Esses bons momentos, entretanto, são esporádicos demais para impressionar. O filme pode até entreter um espectador ocasional, mas dificilmente sobrevive na cabeça muito tempo depois da saída do cinema. Um claro sinal de que Burton está precisando se reinventar e, sim, que sua parceria com Depp está precisando urgentemente de renovação e um pouco de ar fresco, para o bem dos dois.

Nota: 2,5 de 5,0.

domingo, 1 de julho de 2012

Flashback: Blade Runner

Esta semana, o clássico da ficção Blade Runner: O Caçador de Androides completou trinta anos. Enquanto o filme passou longe de ser um sucesso na ocasião de lançamento, tornando-se algo próximo de um fracasso de bilheteria, foi justamente o tempo quem fez justiça ao filme de Ridley Scott, que voltava a visitar o gênero após Alien: O Oitavo Passageiro. Enquanto Alien brincava com metáforas para sexualidade ocultas sob a atmosfera do terror, Scott e os roteiristas Hampton Fancher e David Peoples trabalharam com uma gama imensa de referências pop em Blade Runner, mergulhando-as no molho do noir para utilizar os androides da trama como reflexões sobre a condição humana. Tantas influências poderiam ter gerado um resultado esquizofrênico, mas o talento de Scott impediu isso. O que se seguiu, na verdade, foi um filme que não pode ficar de fora de qualquer lista de melhores do cinema.

A trama, ambientada numa Los Angeles decadente de 2019 (o que era um futuro bem longe em 1982), gira em torno de Rick Deckard (Harrison Ford), um caçador de replicantes (androides criados para serem mais perfeitos que os próprios humanos e trabalharem no espaço, mas que foram proibidos de visitar a Terra) aposentado, que é levado de volta à ativa quando um grupo de replicantes se rebela e desembarca no planeta. Liderados por Roy Batty (Rutger Hauer), eles querem encontrar seu criador para questionar as motivações por trás da própria existência e pedir mais tempo de vida (já que os replicantes são programados para morrer após certo tempo). Em sua caçada, Deckard encontra Rachael (Sean Young), assistente do tal criador que não desconfia que é, ela mesma, uma replicante. Quando a verdade a encontra com um choque e é confirmada por Deckard, os dois começam um relacionamento intenso, mas fadado a um fim abrupto. Enquanto isso, as ruas de uma sombria Los Angeles viram cenário para uma caçada sangrenta, cujo desfecho é ao mesmo tempo belo, trágico e inesperado.

O filme ganhou uma variedade de versões ao longo dos anos, em grande parte pela insatisfação de Scott com o final "feliz" veiculado nos cinemas em 1982, que suavizava as insinuações de que o próprio Deckard era um replicante e garantia um futuro para ele e Rachael. Na versão do diretor, lançada anos depois, o desfecho é mais sombrio e incerto. Qualquer que seja o caso, a questão toca no tema central de Blade Runner: a humanidade. Os replicantes, embora "vilões", parecem possuir sentimentos mais identificáveis do que os humanos, que por sua vez são frios e práticos. É só lembrar da cena próxima ao final onde Gaff (Edward James Olmos), referindo-se a Rachael, diz: "It's too bad she won't live! But then again, who does?" (É uma pena que ela não vá viver! Mas afinal, quem vive?). É impossível deixar de notar a metáfora religiosa: os androides estão atrás de seu Criador para tentar compreender suas próprias existência e mortalidade. Os replicantes são nada mais que um simbolismo para nós mesmos, sempre em busca de respostas e tentando reverter a brevidade da vida, mas terminando com mais dúvidas do que antes na cabeça. Invertendo as concepções de humano e androide, Blade Runner traz o questionamento dos limites da humanidade e, por fim, o que podemos entender desse conceito e qual é, afinal, sua importância numa sociedade cada vez mais tecnológica e robótica.

Em linguagem de cinema, o filme é um espetáculo para os olhos. Uma ficção noir contando com direção de arte e fotografia supremas e a maravilhosa e icônica trilha sonora de Vangelis ao fundo. O longa talvez seja a atuação mais firme de Harrison Ford, um lenda do cinema de ação, que dá vida e depressão ao amargurado Deckard. Há também a presença de uma jovem Daryl Hannah como a sensual replicante Pris, mas é sem dúvidas Rutger Hauer quem rouba a cena. Seu solilóquio final, que foi uma mistura de improvisação de Hauer com elementos do roteiro, tornou-se extremamente famoso e atiçou a imaginação dos fãs de sci-fi ao redor do mundo. Para mim, além de tudo isso, as linhas finais do personagem Batty formam um dos momentos mais bonitos da história do cinema, resumindo toda a moral do filme e arrepiando pela grandeza e simplicidade. É justamente o vídeo dessa cena que escolho para encerrar essa análise. Só resta afirmar que são filmes como Blade Runner que renovam a cada dia meu amor pelo cinema.

Nota: 5,0 de 5,0.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Análise: Prometheus

Há praticamente dez anos atrás, multiplicavam-se comentários em sites especializados de que um quinto filme na série Alien estava em produção. Boatos de uma colaboração entre Ridley Scott e James Cameron, diretores dos dois primeiros e melhores filmes da franquia, surgiam com força, o que animou os fãs de ficção científica. O tempo passou, notícias surgiram, outros assuntos desapareceram, Cameron abandonou o navio (o trocadilho é intencional) e, enfim, dois anos atrás Scott anunciou que assumiria a direção de uma prequel para a série, estabelecendo as origens para a mitologia do universo Alien e revelando a cadeia de acontecimentos que culminaram em Alien: O Oitavo Passageiro. O resultado é Prometheus, que marca o retorno de Scott ao sci-fi trinta anos depois. O filme de fato tenta se posicionar como ponto de partida e funcionar como obra independente e, embora escorregue notavelmente em vários momentos no roteiro, apresenta-se de maneira honrosa para a reputação de Scott junto ao gênero.

Situado em 2093 (29 anos antes de O Oitavo Passageiro, para os mais freaks), o filme segue uma expedição a bordo da nave Prometheus com destino a lua LV-223, integrante de uma galáxia distante, mas similar à Via Láctea. O grupo é liderado pelo casal de arqueologistas Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green), que logo entra em atrito com Vickers (Charlize Theron), funcionária da Weyland Corporation - uma velha conhecida dos fãs de Alien -, que está financiando a viagem e enviou-a para monitorá-la. Na tripulação também está David (Michael Fassbender), um androide de inteligência e habilidades espantosas. Assim que a expedição pousa em seu destino, eles se depararam com uma estrutura que não parece ter sido construída pela natureza e que abriga os corpos de vários alienígenas humanoides que Shaw e Holloway acreditam serem nossos "construtores", razão pela qual os apelidam de Engenheiros. Porém, a medida que o grupo adentra o local, ele começa a se deparar com um horror enterrado naquelas câmaras, que gradualmente começa a matar ou enlouquecer os membros da tripulação. Quando a volta para casa fica comprometida, eles percebem tarde demais que podem ter liberado uma ameaça letal.

Vou começar minha análise de modo inverso ao que costumo fazer, destacando os pontos negativos primeiro. Na verdade, o grande problema nesse sentido, para mim, é o roteiro. Não que ele seja ruim ou peque em ritmo, mas inegavelmente deixa muito a desejar em termos de finalização. Muita coisa é simplesmente deixada no ar e fica a sensação de que todo o tempo estava se pensando em deixar material sobrando para uma continuação. Não que eu ache que absolutamente tudo precise de respostas, mas há um mínimo de perguntas que precisam ser satisfeitas e com o qual Prometheus parece não se importar. Outro ponto que acabou ficando a dever no roteiro - que tem como um dos autores Damon Lindelof, roteirista da série Lost - foi o desenvolvimento de alguns personagens. Enquanto David, o androide, e em certa medida Shaw são construídos razoavelmente, muitos outros personagens importantes acabam se mostrando pouco. É o caso, por exemplo, de Vickers, que faz a ótima Charlize Theron se tornar quase uma participação especial.

De resto, não há dúvidas: Prometheus é uma ficção científica de primeira linha. A homenagem que presta a Alien, quase emulando sua estrutura e sugando seus elementos de cinema de terror, é nítida e bem-vinda. Scott mostra que não enferrujou com o tempo longe do gênero e entrega um trabalho belíssimo. A cena inicial é espetacularmente bonita e a sequência do parto, sem dizer mais para não estragar qualquer coisa, é sem dúvidas a melhor do filme, levando os níveis de tensão a um nível inacreditável. Assim como Alien, a moral final é um alerta para o deslumbramento humano diante do desconhecido e de suas forças que podem sair de nosso controle, mas Prometheus, mais épico e com mais poesia, usa uma salada cultural de mitos gregos, lendas de povos da Antiguidade e referências a Lovecraft para passar sua mensagem. Não é melhor que seu homenageado e sucessor cronológico, que ganha com toda sua simplicidade e crueza, mas é uma adição indolor ao cânone. O elenco funciona, com destaque para Fassbender, mais uma vez roubando a cena em um filme e nos brindando com o melhor androide da série, sempre frio mas começando a desenvolver emoções como inveja e maravilhamento. Uma prequel digna, no momento em que Hollywood parece estar banalizando essa tendência.

Nota: 4,0 de 5,0.

Mas não acabou aqui!
Primeiro, um aviso. Hoje, justamente, 25 de junho de 2012, Blade Runner, de Scott, está completando 30 anos. Fica aqui meu parabéns e a promessa de uma resenha desse clássico dos clássicos para essa semana.
Agora, fugindo um pouco à minha determinação de não soltar spoilers de filmes que ainda estão no cinema ou são muito recentes, um último parágrafo de divagações com revelações do enredo. Daqui pra frente, só leia se já viu o filme. Ou simplesmente se não é do tipo que se incomoda com ter as surpresas estragadas, rs.

Muita gente ficou confusa com o final do filme - e a aparição do Alien - não se conectarem muito bem com o começo de O Oitavo Passageiro. Existe uma razão simples. As duas coisas realmente não se conectam. Aquela não é a lua em que a Nostromo pousa 29 anos depois. Poderia parecer, à primeira vista, que o fim de um levaria diretamente para o começo de outro, mas não. Algo que só reforça a chance de uma continuação, essa sim (talvez) fazendo a conexão final. O gancho já foi estabelecido, com Shaw partindo para encontrar os Engenheiros. De resto, fica a dúvida: o Alien que aparece no final é o primeiro Alien de todos, o elo perdido criado quase que experimentalmente por David quando ele infectou Holloway, e este por sua vez Shaw? Se sim, como os Aliens se multiplicaram por aí e chegaram em outra lua? Pontas soltas que, olha lá, quase obrigam uma continuação para remendar a história. Quando algumas perguntas são respondidas, outras surgem... é a maravilha do cinema.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Pixar: quando filmes para crianças são mais que isso

Colocar sonhos nas telas do cinema. Pode-se dizer que esse sempre foi o lema não-oficial da Pixar e de suas animações. Com uma história de décadas, a trajetória do estúdio cruza com nomes como a Lucasarts, no seio de quem nasceu e cresceu; Steve Jobs, que comprou o grupo na década de 1990; até chegar na Disney, que se tornou a principal parceira do estúdio e a atual detentora de suas ações. Com seu estilo baseado em animação gerada por computadores, a Pixar se tornou uma das pioneiras do ramo - Toy Story é o primeiro longa totalmente no estilo, embora haja quem afirme que o brasileiro Cassiopéia foi o primeiro 100% computadorizado de fato. Discussões acaloradas à parte, a Pixar veio a se tornar o maior estúdio de animação digital do mundo, talvez superando a própria Disney em popularidade na última década. A pergunta que fica é: por quê? Como um estúdio que começou a produzir longas há 17 anos pode ter se tornado um fenômeno cultural tão grande?

Na época de seu lançamento, Toy Story era algo inacreditável, uma verdadeira sensação para a maior parte do público. Sim, a animação, produzida em parceira e distribuída pela Disney, era realmente de uma qualidade espantosa, com uma riqueza de detalhes que ainda hoje é capaz de fazer o crítico mais exigente sorrir. Sua continuação, Toy Story 2, que a Disney chegou a planejar fazer diretamente em vídeo, e Vida de Inseto, os dois projetos seguintes da Pixar, não deixaram por menos, exibindo uma produção cada vez mais apurada e bem executada. Mas outra coisa se destacava fortemente, algo que ia além do assombro visual: os roteiros. Os desenhos do grupo tinham roteiros muito bons, fugindo do esquema tradicional da princesa encantada em perigo e do tirano usurpador (que produziu grandes clássicos, claro, mas que pede por uma pausa e uma reinvenção).

A grande sacada da Pixar foi produzir longas que, de certa forma, eram atemporais. Vamos analisar um grande clássico da Disney em comparação, O Rei Leão, por exemplo (aliás, minha animação favorita - achei que vocês deveriam saber). Seu tema, argumento e desenvolvimento permitem que o longa seja apreciado por pessoas de todas as idades, sempre, mas ele deixa uma marca especial exclusivamente nas crianças. Ele é pensado para ser assim, esse é seu apelo. Agora, consideremos um filme como Up. Seu apelo inicial é o público infantil, é óbvio, mas ele tem um ponto de virada. Sua história consegue falar alto com pessoas de qualquer idade, talvez dialogando melhor até mesmo com uma plateia mais madura. Até mesmo um filme que parece ser moldado exclusivamente para crianças, como Procurando Nemo, encontra esse eco necessário em outras idades que faz com que ele seja, de fato, uma experiência que não vê barreiras etárias.

E são em filmes mais "experimentais", como WALL-E, uma das animações de estrutura mais inusitada dos últimos tempos, que a genialidade da equipe de Pixar em conduzir suas histórias fica escancarada. Uma trama de amor em essência, mas que abraça uma série de temas periféricos, como solidão e inadequação, que não são tão facilmente absorvidos por um público mais jovem, mas rapidamente assimilados com o passar do tempo. Talvez seja esse o ponto que separa de maneira direta a Pixar da Disney. Ambos apreciáveis em qualquer idade, ambos produzindo obras eternas, ambos errando às vezes, mas sempre se mantendo no topo do que fazem. Porém, talvez quando ficamos velhos nos tornamos mais Pixar do que Disney, o último tendo mais aquele gosto quase agridoce de recordações de infância. E, enquanto a Pixar se prepara para levar mais multidões ao cinema com Valente no meio desse ano, nos preparamos nós para dar voz aquela criança que temos e que gosta (melhor seria: precisa) de se expressar de vez em quando. Ela pode agradecer e muito à Pixar pela chance dada todo ano, e que sempre se renova, melhor e melhor.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Análise: Espelho, Espelho Meu

Nem mesmo o grande esforço que é feito para criar uma ambientação visual impressionante em Espelho, Espelho Meu salva o filme de ser mais uma maçã envenenada do que algo tão gracioso quanto a Branca de Neve de Lily Collins. Dirigida por Tarsem Singh, essa adaptação tenta criar uma versão do clássico conto de fadas dos Irmãos Grimm engraçada, com toques generosos de fantasia e voltada para um público mais infantil - quase o oposto da versão que estreará mais à frente estrelada por Charlize Theron e Kristen Stewart, que vende-se como dark e teen. Por mais que eu tenha tentado olhar o filme de Singh com simpatia desde as primeiras notícias a seu respeito, a verdade é que a experiência de assisti-lo passou longe de ser agradável. Não porque eu já não esteja na faixa de idade do público-alvo - isso nunca foi empecilho-, mas pelo simples fato de que o filme tem tantos problemas que chega a ser extremamente entediante.

A história apresenta pequenas variações em relação ao conto: um rei viúvo se casa com uma bela e vaidosa mulher (Julia Roberts). O soberano um dia desparece na floresta, deixando a Rainha para cuidar do reino e de sua filha do primeiro casamento, Branca de Neve (Lily Collins), dita ser a mais bela mulher do mundo. Com inveja da enteada, a Rainha a mantém trancada no castelo, até que a princesa um dia consegue fugir e conhece a pobreza que a nova governante fez cair sobre seu reino. Nessa saída ela também conhece o príncipe Alcott (Armie Hammer), um nobre em busca de aventuras. Desnecessário dizer como eles se apaixonam à primeira vista. O príncipe acaba no castelo da Rainha, que, em meio a uma crise financeira, arma um plano para se casar com ele. Para isso, ela decide dar um fim em Branca de Neve, que conquistou o coração do príncipe e começou a confrontá-la a respeito de sua administração. Ela manda seu servo Brighton (Nathan Lane), que assume o posto do caçador da história tradicional, matá-la na floresta, mas o homem se compadece e deixa a menina escapar. Branca de Neve acaba se refugiando no esconderijo dos Sete Anões, um grupo de ladrões que foram expulsos das cidades por serem "indesejáveis". Juntos, eles vão lutar para que Branca de Neve recupere tudo que perdeu e depor sua madrasta tirana.

Os aspectos visuais do filme são de fato deslumbrantes: a direção de arte e o figurino estão bastante competentes. Os efeitos especiais, se não impressionam, não deixam nada a dever, também. Lily Collins está bem como a Branca de Neve, em uma caracterização bem próxima da qual eu imagino para a personagem original. Apesar disso, torna-se quase forçado pensar nela como a mulher mais bonita do mundo quando ela contracena ao lado de Julia Roberts, que, embora não esteja em seu melhor momento, é a maior graça do filme e possui as melhores cenas.

Porém, a maior parte dos defeitos se concentra em dois pontos: a direção enrolada de Singh, que não explora bem as melhores oportunidades da trama nem tentar extrair mais de seus atores, e o roteiro capenga. Em nenhum momento a história apresenta originalidade o bastante para afastá-la do posto de mais uma adaptação genérica. As piadas soam quase forçadas na maior parte das situações e alguns personagens, como o do príncipe, são incrivelmente mal-desenvolvidos, aparecendo rasos e sem carisma. Até gostei da forma como os anões foram explorados nessa versão, mas com um roteiro tão fraco, todo o potencial deles é desperdiçado em mais piadinhas que não fazem ninguém de fato rir. Junte a isso uma fotografia que mistura momentos razoáveis com outros inusitados e uma montagem que às vezes soa alucinada demais para o estilo da obra e chegamos ao resultado final: um filme com boas intenções, mas que escorrega demais em um número muito grande de falhas, soando perdido e pouco inspirado. Não sei o que será da segunda adaptação da história, mas talvez ainda haja tempo de buscar inspiração sobre o que não fazer.

Nota: 2,0 de 5,0.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Flashback: Titanic

Depois de quase duas semanas "fora", estou de volta. A razão pela ausência de post nesse intervalo é pura e simplesmente minha completa falta de tempo. Mas uma coisa eu posso garantir: não deixei de pensar no blog em nenhum minuto, e, na verdade, estou planejando algumas mudanças na casa para breve. Falarei mais sobre isso nos próximos posts, mas prometo que não vou deixar tanto tempo se passar sem atualizações por aqui.

Para voltar com todo o gás, e atendendo a alguns pedidos, resolvi aproveitar essa onda de ressuscitar filmes em versão 3D para falar daquele que talvez é o maior clássico do cinema dos últimos 20 anos, o que sem dúvidas justifica sua resenha neste blog: Titanic, de James Cameron. Seu legado é conhecido: foi o filme mais caro a ser produzido até então, a maior bilheteria de todos os tempos (foi superado depois por Avatar, também de Cameron), o filme com mais indicações ao Oscar, 14, empatado com A Malvada, e o filme que ganhou mais Oscars, 11, empatado com Ben Hur e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei. Em uma nota mais pessoal, foi o primeiro filme não-animação que vi no cinema, o que de várias formas é algo bem marcante. Dito tudo isso, eu preciso deixar bem claro que não, não acho que Titanic seja o melhor filme da história e o maior feito cultural já realizado pela mão humana - mas também acho que seus detratores exageram e muito em sua fúria. É sem dúvidas um filme emocionante, extremamente bem-filmado e dirigido e definitivamente marcante, embora com o tempo eu tenha observado melhor uma ou outra falha que me impedem de falar em "perfeição".

Todo ser humano que não viveu na Terra Média ou em Nárnia nos últimos quinze anos conhece a história do filme, então apenas darei as pinceladas básicas. O Titanic foi o maior e mais luxuoso navio de seu tempo e era considerado insubmergível. A trama do filme começa na atualidade, com uma expedição do caçador de tesouros Brock Lovett (Bill Paxton) explorando os destroços do navio atrás do colar de diamantes conhecido como Coração do Oceano, que afundou com a embarcação. Ao encontrar uma pintura de uma bela mulher nua, Lovett é contatado por uma centenária Rose Dawson (Gloria Stuart), que conta a equipe sua saga como sobrevivente do naufrágio do Titanic. Uma adolescente Rose (Kate Winslet) embarcou no navio com a mãe (Frances Fisher) e o noivo, o mau-caráter Cal (Billy Zane). A bordo, Rose conheceu Jack Dawson (Leonardo DiCaprio), um pobretão com um talento notável para desenho. Os dois se apaixonam, para desgosto da mãe de Rose e ira de Cal, mas o maior dos problemas deles surge quando o navio se choca contra um iceberg - e o resto, literalmente, é história.

Titanic é provavelmente o melhor exemplo do talento de James Cameron para filmes de ação e efeitos. Sua reconstituição é magistral e as cenas do naufrágio do navio são verdadeiramente épicas. Em todos os aspectos técnicos, Titanic é de fato lendário. Não há um elemento sequer destoando, e é possível ver a mão de Cameron interagindo em cada cena e cada detalhe. O diretor, de fato, sempre foi famoso por seu preciosismo e presença constante (o que lhe rendeu a fama de ditador por alguns). Outra marca registrada de Cameron que o longa representa é sua preferência por filmes grandes e que não poupam despesas. Titanic é gigantesco em todos os aspectos. Pode não ser o meu preferido de sua filmografia, mas é um dos mais lindamente finalizados, sem dúvida. O elenco é bastante competente, com o destaque ficando para Stuart. Tanto DiCaprio quanto Winslet teriam atuações mais impactantes no futuro, mas foi aqui que suas carreiras realmente decolaram.

O meu grande porém com Titanic, contudo, uma questão que conforme os anos passam só se intensifica, é justamente seu roteiro. Sendo bastante direto: ele é fraco. É quase fraco demais para toda a produção que se construiu sobre ele. James Cameron nunca foi um grande roteirista - ele é mais um homem de imagens do que de palavras - e Titanic deixa isso claro. A banalidade de seu roteiro, quase clichê, incomoda bastante. É uma grande pena, pois uma história mais afiada poderia ter verdadeiramente colocando o filme em um outro patamar. Mas, de maneira geral, isso não teve qualquer influência no resultado final. O filme ainda é um sucesso, ainda existem jogadas de marketing sobre ele e referências culturais a seu respeito estão em qualquer lugar na internet. Em seus méritos, que são muitos, é um filme arrasador, e que ainda será lembrado por um longo, longo tempo.

Nota: 4,5 de 5,0.

domingo, 8 de abril de 2012

Top 10: Músicos que viraram atores

A trajetória de um artista no mundo da música muitas vezes pode acabar dialogando com outras formas de arte. Muito frequentemente - em especial nos últimos tempos -, o cinema tem abraçado cantores e cantoras que resolveram fazer suas experimentações nas grandes telas. Ao contrário do que alguns poderiam esperar, essas experiências costumam ser bastante positivas. Muitos cantores já se revelaram atores talentosos. É claro que, da mesma forma, houve algumas situações desastrosas, também. O top 10 de hoje do blog é dedicado justamente a esses artistas que transpuseram as ondas da música atéo cinema, independente do resultado. Duas regras: primeiro - o artista precisava ser músico antes de ator, e não um ator que resolveu cantar também, para que o nome da lista faça algum sentido. Segundo - a carreira no cinema deve ser sólida. Uma participação como si mesmo em um filme de comédia não conta. Estamos falando de papéis pra valer, que exigem esforço de interpretação (ainda que isso não sempre aconteça. Bem).

10 - Jennifer Lopez
Melhor momento: Hum, sua dublagem em FormiguinhaZ

Se é para fazer essa lista, melhor começar do pior. Jennifer Lopez sintetiza em si tudo que pode dar errado quando alguém do mundo da música entra despreparadamente para o cinema, apoiado em uma carreira pop. Meu exemplo acima não foi apenas pelo humor, eu realmente não consigo apontar qualquer exemplo sério na filmografia de Lopez para usar aqui. Ainda assim, sua carreira é grande demais para ser simplesmente negada nessa lista.


9 - Ice Cube
Melhor momento: Os Donos da Rua

A carreira do rapper no cinema pode ser bastante inconstante (com ele tendo participado de alguns desastres como Anaconda junto com... Jennifer Lopez), mas teve seus bons momentos. Sob os cuidados de bons diretores, como John Singleton e Kathryn Bigelow, Cube já rendeu atuações interessantes.




8 - Eminem
Melhor momento: 8-Mile

Outro rapper a aparecer nas grandes telas, Eminem pode só ter participado de um grande sucesso, seu autobiográfico 8-Mile, pelo qual ganhou o Oscar de melhor canção por Lose Yourself, mas esse caso já é significativo o bastante para ser digno de nota. Tendo feito apenas pequenas participações depois, dificilmente Eminem voltará a fazer um papel importante.



7 - Björk
Melhor momento: Dançando no Escuro

Depois de participar de produções islandesas, a exótica Björk foi escolhida para protagonizar esse que talvez seja o filme mais acessível de Lars Von Trier. Por sua atuação, ela ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes (o que me lembra como Von Trier dirige bem suas atrizes, mas enfim, não vamos divagar).




6 - Jennifer Hudson
Melhor momento: Dreamgirls

Saída diretamente do popular reality show American Idol para o mundo, Hudson ganhou o Oscar e vários outros prêmios de melhor atriz coadjuvante por seu papel de estreia em Dreamgirls. De lá pra cá a atriz em pegando outros papeis coadjuvantes, mas se prepara para fazer sua primeira protagonista como Winnnie Mandela, a esposa do lendário líder sul-africano.




5 - Justin Timberlake
Melhor momento: A Rede Social

Membro da boy band do final dos anos 1990 N'Sync, Timberlake surpreendeu muita gente ao construir uma carreira sólida como ator. Ganhador de dois Emmys por papéis na televisão, seu maior destaque no cinema até agora foi A Rede Social, como o fundador do Napster Sean Parker. Um ator bastante promissor.



4 - Queen Latifah
Melhor momento: Chicago

Queen Latifah é um caso de uma cantora tão consagrada no cinema que muita gente simplesmente se esquece ou sequer sabe que tem uma carreira além de fazer filmes. Com uma das filmografias mais respeitáveis dessa lista, Latifah é um caso de sucesso notável.



3 - Madonna
Melhor momento: Evita

A carreira da diva do pop no cinema (que teve sua estreia na direção com Sujos e Sábios e voltou a assumir o posto esse ano com o criticado W.E.) pode ser marcada por altos e baixos, mas é inegavelmente significativa. Seu papel mais forte foi seu dúvida o de Evita Perón, que se tornou aquele que todos associam ao pensar na cantora nas grandes telas. Melhor assim do que lembrarmos de certos desastres como Destino Insólito.



2 - Cher 
Melhor momento: Feitiço da Lua

Com uma carreira musical iniciada em 1965, Cher foi uma atriz de destaque em especial nos anos 1980, quando ganhou um Oscar, dois Globos de Ouro e um prêmio de melhor atriz em Cannes. Muita gente ainda diz que ela roubou esses prêmios de atrizes mais talentosas (eu estou entre esses que não são grandes fãs), mas não dá para negar o peso da filmografia de Cher. 



1 - Frank Sinatra
Melhor momento: A Um Passo da Eternidade

Praticamente o primeiro cantor a trilhar os passos de ator, o genial Sinatra se revelou tão espetacular atuando quanto cantando. Essa foi apenas mais uma das tendências que Sinatra deu início, e por sua atuação em A Um Passo da Eternidade ele ganhou o Oscar e o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante. Ele realmente ainda é o homem a ser batido nesta lista.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Análise: Um Método Perigoso

Eu vou começar essa resenha de forma direta e um tanto quanto bombástica, porque considerando seu teor altamente contraditório, não há outra maneira de fazer isso. Eu já vi alguns filmes de David Cronenberg, não todos, mas uma boa parte, o suficiente para dizer o que vou dizer agora: Um Método Perigoso, seu último filme, que chega ao Brasil com quase um ano de atraso, é o pior de sua filmografia. Não, ele não é nenhum desastre. Pelo contrário, suas características positivas superam as negativas. Seu maior pecado, porém, é ser convencional demais, não ousar, se manter colado demais ao padrão, ainda que seja fruto justamente de um diretor que é famoso por não gostar de chegar nem perto de nada disso. Apesar disso, e contraditoriamente como eu já avisei que essa resenha seria, o filme ainda assim é altamente assistível, e um trabalho de forte atuação.

A trama, baseada em uma mistura de fatos reais e suposições amplamente aceitas pela história, mas com muitos detalhes ainda desconhecidos, narra a amizade de Carl Jung (Michael Fassbender), o pai da psicologia analítica, e Sigmund Freud (Viggo Mortensen), o pai da psicanálise. Jung e Freud tiveram uma relação primeiramente construída sobre uma base de admiração, mas que foi gradualmente se deteriorando em função das divergências entre esses gênios do século XX, tanto no campo das ideias quanto em aspectos mais pessoais. Entremeando essa amizade está o relacionamento de Jung com Sabina Spielrein (Keira Knightley), uma mulher inicialmente diagnosticada como histérica que acaba sob os cuidados do psiquiatra. Jung tratou de Sabina, transformando-a em sua paciente modelo, e estimulou a paciente a seguir o caminho da psiquiatria, fazendo com que ela se tornasse uma das primeiras mulheres a se destacar na área. Contudo, o relacionamento de ambos rapidamente evoluiu para algo mais, apesar de Jung ser casado, o que escandalizou a comunidade científica da época.

Mantendo-se bastante fiéis ao que é conhecido historicamente, nem Cronenberg nem o roteiro de Christopher Hampton procuram correr riscos. Bem diferente disso, o diretor canadense entrega seu trabalho mais "modelo clássico", com roteiro amarradinho (mas com algumas ótimas tiradas e diálogos potentes) e estrutura extremamente convencional. Essa incapacidade de ir além do filme incomodou particularmente pela mistura de um tema promissor com a presença de um cineasta ousado e talentoso, mas não chega a comprometer o filme como um todo. Apenas, porém, faz com que ele não ganhe um ar de "memorável" ou mesmo não perdure por mais tempo na cabeça do espectador. Ao dizer isso, não quero insinuar que o filme deveria obrigatoriamente cair na predileção pelo bizarro e por estéticas perturbadoras de Cronenberg. Ele já provou que pode fazer muito bem enredos mais mundanos, mas ainda assim impactantes com Marcas de Violência e Senhores do Crime. Esses exemplos, porém, mostram sua capacidade de fazer algo mais em argumentos mais pé-no-chão.

Dessa forma, o grande trunfo do longa está em suas atuações. Se Michael Fassbender, um excelente ator, não entrega seu papel mais impressionante, ele ainda cria um Jung crível e interessante. A atuação de Keira Knightley talvez divida opiniões por seu embasamento (na primeira parte do filme) em tiques histéricos e no próprio exagero característico dessa condição, mas eu particularmente gostei. Contudo, quem se destaca é Viggo Mortensen, sem medo de imprimir uma marca pessoal em seu personagem, fazendo um Freud de características próprias. Há ainda uma participação rápida e competente de Vincent Cassel como o psicoanalista e maluco-não-tão-beleza Otto Gross. Como um todo, o filme entretém e chega a seu objetivo, mas não me surpreenderei se daqui há alguns anos ele se transformar em obra renegada pelos fãs extremos de Cronenberg. Para o resto do público, em especial, os fãs de enredos com grandes dilemas psicológicos, a conferida pode valer a pena.

Nota: 3,5 de 5,0.